sábado, 10 de dezembro de 2011

Outros dias

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Danaid (1885) - Auguste Rodin




Hoje acordei arte
acordei outra vida
me despedi do mergulho nas palavras técnicas
e submergi no mar de letras,
sons e cores
da vida cotidiana
de todos os mortais.

[MJ]


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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Coragens [CFA]

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Fotografia: Andreas Stavrinides






Nada em mim foi covarde, nem mesmo as desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de coragem.
                                                                                         [Caio Fernando Abreu]






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domingo, 27 de novembro de 2011

Porque há mulheres-poesia, para homens-poeta

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Fotografia: Shlomi Nissim





 
(...)
Porque há mulheres que são belas e poéticas, mas, algumas são belas, poéticas e inteligentes,
e as que são, a um só tempo, belas, poéticas e inteligentes, não vendem seu tempo aos vermes, não lambem os cães e nem se permitem aos crápulas da terra.
Estas são as mulheres que enxergam, sentem e pensam e, por isso mesmo, encontram filósofos e poetas;
E quando encontram homens assim, a vida se transforma em festa, o vinho é posto sobre a mesa e a música ecoa madrugada adentro com o talhe dançante de corpos que levitam...
(...)

Pietro Nardella-Dellova, " השילמית A Sciulamith, porque a beleza, poesia e inteligência encontram-se nela ", in A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS, Ed. Scortecci, 2009, p 275 (Livraria Cultura)
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Funções de cidadão

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"Já que colocam fotos de gente morta ou "quase" nos maços de cigarros, por que não colocar também de gente obesa em pacotes de batata frita; de animais torturados nos cosméticos; de acidentes de trânsito nas garrafas e latas de bebidas alcoólicas; de gente sem teto nas contas de água e luz; e de políticos corruptos nas guias de recolhimento de impostos?"
(De um tabagista discriminado!)




Recebi por e-mail e não resisiti compartilhar aqui, pois, não é que é boa a ideia?
Sem querer fazer apologia ao tabagismo, a ideia de isonomia, em questões que cabe a igualdade de tratamento, sempre me agradará. Quanto mais pelo fato de a proposta do cidadão irresignado chamar a atenção para a hipocrisia das campanhas públicas, fechando a lente em questões pontuais, de modo desvirtuar o foco das incontáveis mazelas sociais deflagradas pela omissão do Estado.
Para dizer o menos, o que se tem como resposta do Estado é a cifra zero em investimentos sérios e efetivamente comprometidos no combate às causas das moléstias da modernidade e da falta de ética.
Incumbe, assim, a cada um dos cidadãos a sua parte: conhecer, saber, interar-se acerca do pano de fundo de ações supostamente garantidoras de direitos, e devolver o conhecimento em forma de pressão popular - uma vez que esta a única via de modificação do status de omissão do Estado, que persiste há décadas.






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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Das secundárias e distorcidas ferramentas do Facebook






1. Queres bater-papo?
Me liga, que falamos por telefone ou marcamos um encontro.

2. Queres insistir na conversa, via digitação?
MSN - mas só com hora marcada, senão não existo por lá.

3. Queres me seguir?
Contrate um detetive, pois não tenho tempo pra twitter, sequer vocação para dizer cada passo que dou, feito celebridade frustrada.

4. Queres que te siga?
Publique algo novo, fundamentado e consistente, que quando eu tiver um tempo, mas quando eu tiver um tempo, certemante te visito, sem garantia de manifestação.

5. Queres que eu comente, por obrigação? Recomendo um analista.


Maria Janice, em dias de TPM e recreação -  desenhando sobre o bom senso no uso das redes sociais.


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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Leituras

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Quando digo duramente,

pretendo a leitura,

não da dureza da pedra,

mas do brilho de um diamante.



MJ, 11/11/11


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Amo o amor

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Fotografia: Yang Wang






Amo o amor
Amo os que amam 
genuinamente
e toda forma de amar
Amo o amor 
neste sentir não-dependente,
não-substituto 
da falta de amor 
por si próprio

Amo o amor 
nesta leveza 
contemplativa  da liberdade 
sua e do outro
do que gravita pelo mundo
e mesmo assim
em seu amor
se faz o mais presente
porque amor
é onipresença

Amo o amor que fala pelos olhos
reverbera no sorriso
que acolhe na pele
e nos ouvidos
morde com as palavras
no mordiscar de amor


Amo o amor que não carece de aprovação
pois que isto não é amor
é alguma coisa que obtura 
o buraco a ser tido 
como incapacidade 
de amar

Amo o amor que grita 
no silêncio de quem sabe 
o que seja amar
[E o que é saber amar?]
e por isto 
em urros contidos
silencio
- pois amar, 
já foi dito
transcende 
toda tentativa 

de explicar.








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sábado, 5 de novembro de 2011

Dos poemas: Poema em Linha Reta - Fernando Pessoa

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Poema em Linha Reta

                             
              Álvaro de Campos*

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


*Heterônimo de Fernando Pessoa


Na voz de Paulo de Autran, imperdível: 

http://www.youtube.com/watch?v=3dRchZ-vRAI&feature=player_embedded


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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Do mundo jurídico: O fim de “Morde e Assopra” e o mundo imaginário dos juristas

Vozes que merecem ser ouvidas, ou palavras que merecem ser lidas, para um outro olhar sobre o mundo jurídico, justificando a escolha de seguir acreditando em um Direito diferente do senso comum.

Janice.




O fim de “Morde e Assopra” e o mundo imaginário dos juristas



O fim de “Morde e Assopra” e o mundo imaginário dos juristas

                                                                                   Gerivaldo Neiva *

Dia desses, navegando sem muito rumo na Internet, deparei-me com a notícia de que um novo mundo, com dinossauros e tudo, teria sido descoberto no interior do planeta terra. Segundo o relato, exploradores de caverna, em busca do fóssil da cabeça de um dinossauro, teriam encontrado este mundo fantástico após caírem em um lago profundo no interior de uma caverna.
Os noveleiros e noveleiras de plantão já sabem que este fato aconteceu no último capítulo da novela “Morde e Assopra”, da Rede Globo. Na pobre ficção global, os personagens encontraram a cabeça do dinossauro e, de quebra, a heroína reencontrou os pais, isolados neste mundo fantástico há muitos anos, e ainda trouxeram para a superfície uma mochila carregada de diamantes.
A ficção é pobre e sem o menor sentido. Apesar de localizado no centro da terra, no lugar encontrado existia luz e plantas. Como assim? De onde vem esta luz? Como ocorre a fotossíntese sem o sol? E o oxigênio, como era renovado? Ora bolas, em novela nada disso interessa e o telespectador se satisfaz com o final feliz e já dorme pensando na próxima novela. Muita parecida, aliás, com o enredo “daquela” outra novela que nem lembramos mais o nome.
Este mundo absurdo, desprovido de qualquer sentido real, no interior do planeta e distante, portanto, da vida nua, da poluição, da pobreza, da marginalidade e da violência urbana, lembrando Warat, fica parecendo aquelas fotografias de casamento em que os recém casados posam diante de um belo painel ou os bolos de casamento feitos de papelão nas cerimônias de casamento em Cuba. Em ambos os cenários, tal qual no mundo fantástico de “Morde e Assopra”, todos sabem que a paisagem por trás dos recém casados não é real e que o bolo é de papelão e serve apenas para compor a fotografia do casamento. Verdadeiros ou não, para a posteridade, no entanto, vão figurar como se fossem reais. Nossos olhares e mentes, como inebriados, serão absorvidos pela ilusão e o que era mentira torna-se verdade. Assim, de fato, os recém casados posaram diante de um palácio real e o bolo de casamento estava uma delícia. Segue a íntegra, aqui.
* Juiz de Direito (Ba), membro da Associação Juízes para a  Democracia (AJD), em 18.10.2011.


 

domingo, 9 de outubro de 2011

Julgamentos estéreis na desconsideração do outro

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Fotografia: Annie Leibovitz





Cansa-me a forma dos julgamentos. E isso não tem relação com a máxima de que não seria politicamente correto julgar, pois contraria a natureza humana. Todos julgam a todos e a tudo, o tempo todo, lançando olhares sobre fatos, atos, atitudes e concluindo algo sobre o que se apresente. Isso é julgar, formar convicção acerca de alguma coisa. Nada de errado.

O que a mim cansa são os julgamentos fundamentados no que seja 'normal'. Sei que o tema é batido, mas isto não significa que não mereça ser lembrado no intuito de sinalizar para o quanto se precisa crescer em nível de análise dos comportamentamentos, sobre nós mesmos e sobre o outro.

Julgar a partir do que seja normal. No Direito, por exemplo, há julgamentos motivados a partir de uma regra chamada 'experiência comum', que estaria representada pelo comportamento social usual frente a determinadas situações. Tal regra, em um julgamento, reforçaria a carga de aparência de verdade das alegações das partes no processo. Ou seja, se alguém recebe uma correspondência de cobrança indevida, o comum, habitual, é que a pessoa se insurja quanto a isto. É comum, mas nem sempre será 'a verdade' propriamente. Assim, somada à experiência comum  - comportamento usual coletivo -, outros elementos hão de vir ao processo para que se conclua pela inércia ou não diante do recebimento da cobrança controvertida.

No plano da vida cotidiana, comportamental, os naturais julgamentos humanos se processam de forma diferente. Parte-se de uma premissa de que comportamentos padrão coletivos são tidos como 'verdades absolutas' e, portanto, referenciais de normalidade.

Primeiro, embora se saiba é bom reforçar, não existe absoluto. Segundo, normalidade estabelecida a partir de um comportamento padrão será inexoravelmente afetada tão logo surja outra forma de agir, se posicionar. Afeta porque, ainda que se resista ao novo no intuito único de sustentar a segurança que a inércia traz à verdade estabelecida, o ato da resistência, por si só, acarreta o fim da zona de conforto do comportamento padrão, pois impõe um movimento diferente. Impulsiona para um julgamento e, assim, tira do estado de segurança.

Essa incômoda presença deveria servir, de antemão, não para precipitar uma conclusão de modo que se retorne ao estado confortável o quanto antes, mas sim entender que onde há resistência, há outras verdades, e que um julgamento mais próximo do justo será aquele que busca conhecer a verdade alheia antes da sentença que rejeita ou acolhe a forma do outro.

A par disso, quando digo que me cansa a forma dos julgamentos, quero chamar para os outros olhares que devemos ter sobre a aparência dos comportamentos. Aparência não diz com o que realmente é. Nada deve ser tido como normalidade - confundida com verdade aliás - quando a conclusão nascer e se sedimentar unicamente do olhar individual ou coletivo, a partir do microcosmos de convivência. Desse modo, tende-se a usar os filtros das verdades individuais sobre o objeto da observação, resultando conclusão de parecença, o que não traduz a verdade do objeto observado. Há outras formas de existir, ver e viver a vida e, portanto, fazer escolhas. Parece tão óbvio, mas o que observo é que a obviedade reside apenas em discursos.

Se é que se pode falar em normalidade, o normal deveria ser, então, cada um treinar sistematicamente o julgamento de suas próprias escolhas, depois observar as diferentes formas possíveis de se transitar na vida, contrapondo à sua própria forma. Daí então julgar. É que algo me diz que quem pratica o autoconhecimento consegue resistir menos às escolhas alheias, assim como dar menos importância aos julgamentos  recebidos - menos, pois enquanto seres sociais, não se pode dizer que julgamentos não afetam.

 


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Das observações do universo feminino: 'Tese' da semivirgem, apesar dos novos tempos

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Tarsila do Amaral




O quadro: O mito de transar na primeira vez. A mulher conhece o fulano e vai direto para a cama no primeiro dia. O moço a interessa para romance. E nessa condição, mesmo sem ser perguntada, a mulher tende a justificar seu 'impulso permissivo/promíscuo', no intuito único de afugentar qualquer fumaça de pensamento que a inclua no rol das promíscuas. Afinal, acreditemos ou não, segue no imaginário comum a existência de uma identidade 'mulher pra casar' - leia-se 'pra casar' como relações estáveis. O carimbo no passaporte 'pra casar' vai ser lido a partir do comportamento das moças - tão modernas para tantas coisas, mas que a cultura machista ainda as faz dançar conforme a dança cultural.

Cena. Vão para cama. Exaustos do fim, jogam-se onde quer que seja. Hora de ela entrar derradeiramente em cena. Incorpora uma grande atriz hollywoodiana, ou Jenete-clairiana, conforme o gosto do freguês. Dá asas à imaginação, quando, de súbito, chama a atenção do único espectador, dando início à tragédia da vida privada. Posiciona-se no centro do palco, e seu único espectador será visto por ela como muitos, diante das múltiplas expectativas depositadas em um futuro namorado/marido. Então despeja o roteiro aprendido, ensaiado e praticado em tantos outros palcos por que já tenha se apresentado:

- Meu deus, meu deus... incrível, transei na primeira vez!! Isso nunca aconteceu comigo antes! O que, afinal, terá acontecido comigo hoje? Não consigo entender, é contra meus princípios, no mínimo espero até terceira vez... mas é que você... você, bem... você... você é tão espetacularmente espetacular em sua especialidade de ser espetacular que... enfim... sucumbi... Oh, céus...

Ok, corta! Fim do ato principal, e único que interessa aqui.
Ressalva: Tudo fake. E o ato teatral, diga-se, não é privilégio de menina de pouca idade apenas, vale para as balzaquianas e algumas lobas desavisadas também. E sim, homens, talvez porque precisem, costumam acreditar. Fecha a ressalva.
Dramaticidade à parte, fato é que é mais ou menos isto. Um drama repetido com maior ou menor veemência, (in)voluntária e contraditoriamente exercitado a partir de convicções culturais. Os tempos são outros, as atitutudes e discursos públicos são outros, próprios da irreverência que a contemporaneidade clama; mas, como se vê, no universo particular, privado, afloram as contradições e conflitos; e seguem as damas repetindo, repetindo, repetindo... perpetuando o modelo que conscientemente repelem.

Há lógica nisso. Uma mudança efetiva de valores sociais demanda décadas e décadas. Mexer com a cultura de um grupo social, pode ter o start em simbólicos atos, como queimar sutiãs em praça pública, declarar direitos de igualdade em legislações. Mas será apenas o start, pois que a introjeção de uma nova ordem dependerá da aceitação e prática cotidiana dos novos valores que se pretenda efetivar, igualmente praticando o exorcismo de tudo aquilo que conflitue, cause desconforto, por atemporal.

Cada um acredita no que precisa acreditar.
E cada um afugenta ou constroi dramas na exata medida de sua capacidade de ligar o 'dane-se' aos julgamentos alheios - que serão qualquer coisa diferente do que efetivamente se é.


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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Diálogos que causam





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Fotografia: Shlomi Nissim




Diálogos que causam
seria algo próximo à trasmutação de estados, condição.

Mexem. Revolvem.
Modificam o esquadrinhamento de certos sentires,
compreensões,
construídos a partir de experiências boas,
outras nem tanto,
mas que guardamos sós.

Mexidos e homogeneizados
por meio da provocação,
transformam-se os sentires em novas sensações.
Alteram a ordem das coisas,
os olhares despendidos sobre nosso microcosmos particular.

 Resulta uma espécie de metonímia de sentimentos,
onde o sentir-se dilacerado
vai dizer de ricos fragmentos
de emoção –
involuntariamente desvelados.
Que, ao cabo, será bom.

Onde o maldizer circunstâncias
reveste-se de desafogo momentâneo,
desatando o nó
aliviando a ardida garganta -
machucada
pelo não-dizer.

Onde o aparente descaso
é de ser lido como negligência inconsciente
por circunstancial,
alheio a tudo que a nós possa parecer
pois do outro -
em sua verdade não nossa.

 E até mais pontual
- pueril, paradoxal -,
diálogos metamorfoseiam:
onde antes se lia tristeza
dali em diante se lê alegria.
Onde antes suscitava desassossego
da provocação redunda calmaria.

Onde antes sugeria vazio
O diálogo
[que causa]
- liquefeito -
permeia,
ocupa.





* Inspiração em dois dialógos distintos, com os amigos queridos: Démerson Dias e Lu Picolli

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A_pegada





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Meu apego não diz, pois
com digitais que marcam.
Antes,
fortemente apegada
à pegada
que toca
a alma.




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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Das flores de acácia

Lembro dos beijos roubados
e daqueles consentidos, apertados
Das cóssegas que faziam dobrar de rir
Dos banhos de rio, permitidos somente mais tarde
depois da digestão da melancia
- que passei a não comer mais...
Dos passeios na barca Esperança,
nome que demorei anos
para entender a tua escolha.
Das bonecas, dos triciclos e bicicletas
dos Natais que faziam olhos brilhar
Dos discos tocando, dos passos ensinados de dança
Dos espetáculos dos palhaços no picadeiro
de cada circo que chegasse na cidade





Das lágrimas no teu rosto
e da tua mão segurando forte a minha
enquanto a criança chorava
em quartos de hospitais
- medo de 'injeções'
que eram para curar.
E por isso,
Das missas e procissões,
das asas de anjo,
pagando as tuas promessas
para Deus me salvar.
E me deste a vida duas vezes!




Das nossas sexta-feiras,
durante as férias,
convocada para o posto de navegadora de bordo
percorrendo as estradas de chão batido,
embriagados pelo cheiro das flores de acácia negra,
[a árvore de onde colheste tantos frutos,
é perfume
pra sempre
impregnado em mim]
Acompanhados de música,
cantarolávamos juntos
repertórios sem fim.




Do meu fascínio por guiar,
oriundo do teu colo,
me ensinando aquela lógica estranha
de trocas de marcha e direções.
Faltaria muito até alcançar
o entendimento
e os pedais.




Lembro do teu gesto de leão,
defendendo a leoazinha
- e nem era pra tanto...

Das tuas lutas e batalhas sociais
dos discursos que me orgulhavam
de tua conduta ética,
teu caráter, boa-fé exagerada,
sem jamais se deixar contaminar.

Compreendi a aparente ausência,
sabendo hoje que ausência de evidência
não significa evidência de ausência *
- era tua forma.

Enxergo o meu sorriso
e ganas
que lembram os teus.

  Obrigada por poder te agradecer.

[Adair Vianna -  25.09.1935 - 24.06.2012]



*Carl Sagan




terça-feira, 9 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

O que te difere?

Arte: Marcel Caram




"O que é que te assombra, estrangeiro,
Se o mundo é a pátria em que todos vivemos,
Paridos pelo caos?"
Meleagro de Gádara, poeta grego, 100 a.C.


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sábado, 30 de julho de 2011

Do mundo jurídico: acerca de 'ser', para além do 'dever-ser'*

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Arte: Salvador Dalí


“o discurso critico não pode ter nenhuma pretensão de completude, nem pode pretender falar alternativamente em nome de nenhuma unidade ou harmonia, já que está em processo permanente de elaboração” (Luis Alberto Warat)

Por Márcio Berclaz *


1. Ter na crítica a principal ferramenta para superação e transformação da realidade;

2. Não se contentar com as limitações do “senso comum teórico” (WARAT) ou qualquer outro tipo de dogmatismo ou fetichismo por mais sedutor que seja o seu “canto da sereia” (ex: positivismo jurídico);

3. Não se iludir com a visão simplista do direito reduzido ao monopólio nos enunciados do Estado, emprestando valor (e vigor) ao pluralismo jurídico como idéia a ser posta em constante movimento (WOLKMER);

4. Saber que fazer justiça, mais do que mera lógica ou subsunção asséptica e neutra, passa por escolhas autorais valorativas e corajosas, desde que necessária e constitucionalmente fundamentadas, ainda que isoladas ou minoritárias, não por decisões “anônimas” atribuída aos Tribunais Superiores;

5. Enxergar o direito pela lente contra-hegemônica, com a compreensão da sua historicidade;

6. Reconhecer que existem aparelhos ideológicos de dominação (ALTHUSSER) que exercem forte influência (e alienação) sobre a forma de interpretar e aplicar o direito, daí a importância da hermenêutica jurídica e filosófica (STRECK);

7. Ter consciência de que as relações jurídicas derivam das relações sociais, genealogia que, a despeito do discurso normativo, justifica a permanente busca de aproximação do “dever-ser” para o plano do “ser”;

8. Refletir sobre o direito não a partir de ingênua linearidade da história, mas com a percepção de que a colonização, o escravismo, a “sacralização” da propriedade e outra vicissitudes servem de alerta para mostrar a contingência do presente e o uso instrumental (e indevido) que muitos tentam fazer do direito para a perpetuar a dominação;

9. Defender um direito livre e vivo (EHRLICH), pleno de faticidade e distante da “standardização”;

10. Perceber que o ensino jurídico permanece em crise aguda e saber que sem que haja a sua radical transformação, com prioridade efetiva para as disciplinas formativas ou propedêuticas, não há melhor horizonte possível;

11. Saber que o direito, mais do que ser reproduzido acriticamente, assim como o humano, está em permanente construção e fecundação, sujeito ao materialismo histórico da realidade;

12. Saber que o direito, antes de instrumento de dominação, pode ser poderoso arma de combate (Nietzsche) para “martelar” interferência positiva na realidade social, contanto que cada operador ou jurista saiba reconhecer sua condição de sujeito protagonista;

13. Desconfiar que um projeto de juridicidade alternativa, mais do que possível, é urgente e efetivamente necessário;

14. Reconhecer que os “buracos”, as lacunas e as contradições do sistema são ferramentas necessárias para mostrar que o compromisso que se há de ter é com o “fundo” e não com a forma;

15. Saber que é preferível a insegurança e o desconforto do direito como espaço da “falta” do que reduzi-lo a uma embalagem recheadas de verdades e certezas;

16. Reconhecer que o melhor caminho a seguir passa longe das autopistas dos leguleios, exigindo digestão e interpretação emancipatória, por maior que seja o desafio da encruzilhada na falta de sinalização;

17. Refletir sobre os significados possíveis do significante “direito novo” (ex: justiça restaurativa, mediação, “direito achado na rua” ou qualquer outra idéia de cunho diferente e progressista);

18. Saber que não há bom direito sem que se faça uma interlocução do seu “achado” com outras experiências de sensibilidade (literatura, arte, música,teatro, etc);

19. Conhecer os escritos de Pashukanis, La Torre Rangel, Michel Miaille, Roberto Lyra Filho, Amilton Bueno de Carvalho, Antonio Carlos Wolkmer, Edmundo Lima de Arruda Júnior, Alexandre Morais da Rosa, entre outros;

20. Lembrar com saudade e saber que o barco maravilhoso, carnavalizado e surrealista de Luís Alberto Warat/Casa Warat precisa continuar...

* Márcio Berclaz, Promotor de Justiça. Blog Recortes Críticos - recomendado.


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domingo, 24 de julho de 2011

Universo de nós dois

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Arte: Helene Knoop








E tem que ser bom, leve, divertido
Porque já havemos saber
que rir de nós mesmos
e do que venha do outro
fundamenta existências
Que seja despretenciosamente pretencioso
e pretenciosamente liberto
das amarras do passado
que em regra
estereotipam conceitos
Que encante
que me coma
que eu coma
um comer-se mútuo
- de cabeças.
Que seja tranquilo
- na tranquilidade inquietante
que somente impacienta
por conta das horas que faltam
para de novo e outra vez
e mais outra
repetir - a presença
E quando doer
que seja pela exaustão dos corpos
porque nesta mutualidade
faz-se o corpo ávido
sem limites
tudo permite
estira músculos
rompe a pele
ultrapassa a própria capacidade
sensorial
- pois que arde,
na melhor acepção de dor física.
E quando houver percalços, tropeços
sejam eles contornados 
com a reserva 
do aprendizado
que o tempo fez acumular
E sendo assim
boa viagem
ao universo de nós dois.


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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Aquele que ensandece

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Toda mulher,
se já não conheceu,
deveria um dia conhecer,
um gigante de Marraquesh.
- apesar do Marrocos.


O anão de Marraquesh
       [Affonso Romano de Sant’Anna]

Em Marraquesh há um anão que ensandece as mulheres.
Elas vão ao banho (dizem aos maridos)
fazer limpeza de pele
mas algo a mais ali sucede,
basta ver como depois
além do corpo
a alma lhes vai leve.
O segredo deste anão está guardado na palma de sua mão,
pois com seus dedos sabe sublimar as mulheres.
Elas vêm
e ele
com silencioso gesto
pede que se dispam - se despem.
Se ele dissesse: voem voariam,
se dissesse: dancem, dançariam,
se dissesse: amem-me o seu mínimo corpo, amariam.
Mas pede apenas que larguem suas vestes
e se deitem
à espera que suas pequenas mãos se agigantem
e abram portas, janelas
desvãos abismos
na vertigem da viagem dentro da própria pele.
Quando se despem
despedem-se dos maridos
e já não mais carecem de amantes
é como se Penélope
convertida em Ulisses
nas mãos do anão
a Odisséia sentisse.
Ninguém sabe exatamente o que seus dedos operam.
Começa pelos pés
e algo vem subindo
devagar
ao leve toque que não toca,
que roça, às não fere,
que solicita e impera
e vai em círculos
como se o bem e o mal se transcendessem numa espiral de delícias.
Os maridos e parceiros ficam no hall do hotel bebendo uisque, nas quadras jogando tênis e nunca saberão o que ocorreu ao leve toque daquelas pequenas potentes, suaves mãos.
Finda a massagem (nome conveniente à transfigurante viagem) as mulheres reaparecem translúcidas, caminhando a um centímetro do chão
irrompem inalcançáveis
como se tivessem tido uma visão.
Aos maridos não adianta qualquer explicação. Há na pele da alma delas algo de que jamais se esquecem:
o irrepetível toque
dos dedos
e das mãos
do anão de Marraquesh.



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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Devia ser proibido*







Devia ser proibido, fumar?
Não.
Não conhecer, ouvir e sentir Itamar.



Poesia musicada, deliciosamente interpretada por Itamar Assumpção e Zélia Duncan.
Sinta, ouça.
http://www.youtube.com/watch?v=uCy1OE48Ros

E leia

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Devia Ser Proibido
    [Itamar Assumpção]

Devia ser proibido
Uma saudade tão má
De uma pessoa tão boa
Falar, gritar, reclamar
Se a nossa voz não ecoa
Dizer não vou mais voltar
Sumir pelo mundo afora
Alguém com tudo pra dar
Tirar o seu corpo fora
Devia ser proibido
Estar do lado de cá
Enquanto a lembrança voa
Reviver, ter que lembrar
E calar por mais que doa
Chorar, não mais respirar (ar)
Dizer adeus, ir embora
Você partir e ficar
Pra outra vida, outra hora
Devia ser proibido...






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domingo, 17 de julho de 2011

Um olhar que não te atravesse*

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Foto: Joseph Cartright



Por adequado à série 'Das observações do universo feminino', combina estar aqui. Merece pequena observação: só fazem conosco aquilo que permitimos; e a medida da satisfação ou frustração está intimamente ligada à expectativa, por isto fica terminantemente proibido chorar.



Um olhar que não te atravesse
     *Stella Florence

É domingo. Você está enterrada até as orelhas sob cobertores, TV ligada numa luta de boxe qualquer que te hipnotiza com sua simetria de golpes. Então, o celular toca. Número desconhecido. Quem é? Sou eu. Ah, você odeia quando a coisa começa assim. Mas ele se identifica logo, conseguiu seu celular com um amigo.

Lembra de mim? Flashes de um homem de sobrancelhas loiras se espreguiçando devagar como um cão grande. E você adora grandes cães, com muito pelo, muita saliva, um grunhido rouco que significa “me coça” e uma maneira desajeitada de se jogar em cima de você. Sim, faz tempo, mas você se lembra dele. E em meia hora de conversa, sim, você gostaria de vê-lo agora. E nesse agora não há ansiedade, nenhuma ansiedade. No meio da conversa, ele pergunta:

– O que você quer?

– Um abraço. – você responde.
 
E é verdade. Você não quer muito mais do que isso. Um abraço e um olhar que não te atravesse, alguém que olhe dentro dos seus olhos e veja você, não o reflexo de si mesmo.

No carro, você pensa que todos os homens que passaram pela sua vida ultimamente só retiraram, cada um e todos eles, um naco da sua energia. Então, ao voltar para casa, você se percebe mais triste e mais sozinha e mais vazia e mais seca do que quando havia saído. Eles lanham seu rosto com a barba malfeita enquanto sugam o que você tem de mais precioso. Os homens te enfraquecem. Por que hoje seria diferente?

Ele te leva para o apartamento dele, te mostra sua vista do décimo quarto andar e encosta o peito em você. Apenas encosta. O suficiente para o cheiro dele subir direto para sua cabeça como uma longa tragada de baseado.

Mais tarde, você vai até o banheiro se lavar e tem a sensação de que aquela casa é acolhedora e quente. No corredor, você se agacha em frente a ele: Crow, o cachorro daquele homem. Grande e dourado, pêlos como fibra de ouro grudando na sua calça preta e aqueles redondos, densos e inocentes olhos castanhos. É ele quem acolhe as pessoas e esquenta a casa. É ele quem se aproxima e é ele quem te lança um olhar de reconhecimento, um olhar que não te atravessa, aquele olhar que você estava procurando. Com curiosidade e sem qualquer defesa. Ele é pura doação. Não importa quem você é, se sua barriga é flácida ou se sua garganta segura um choro doído há meses, não importa se sua maquiagem borrou e te deixou com imensas olheiras ou se você está menstruada: Crow te acolhe. Só com os olhos, ele te acolhe.

O homem te leva para casa e você se sente numa cena de “Lost in translation”: você, uma Scarlett Johansson no Japão, enquanto Bill Murray dorme no carro e a noite está agradável. Então você se lembra dele, dos seus enormes olhos que te devassaram num segundo. Crow. Pensando bem, você gostaria de chorar.



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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Das observações do universo feminino: iniciar romance dá um cansaço!


Foto: Annie Leibovitz



Iniciar romance dá um cansaço!

Essa foi a conclusão de um grupo de mulheres que resolveu aquecer a noite gelada à base de vinho e trocas.

A partir da frase, os comentários giraram em torno do comportamento que se estabelece quando dos primeiros encontros com alguém interessante - para investir em romance.

Estes eventos, com menor ou maior investimento e expectativa, se transformam em uma espécie de inferno aqui na terra - inclusive já circulou na internet há alguns anos atrás uma bela descrição sobre este drama da vida privada feminina. O tal inferno na terra, se comparado, pode ser bem pior que um triatlo, uma maratona no deserto, ou ainda mais penoso que a escalada do Everest por um sedentário. Não é exagero, é que um simples encontro com o sujeito dos desejos é antecedido por horas de investimento em tempo e até dinheiro em alguns casos, além de muito, muito estres. 

Aliados à expectativa e ansiedade naturais que qualquer encontro com alguém que se julgue interessante gere, a parte prática tem início na procura de hora no salão de beleza para deixar em dia unhas, cabelo, depilação. Marcadas ‘as horas’, deslocar-se até o local e executar as árduas tarefas. Sim  árduas, porque não há prazer algum naquelas horas perdidas lá, salvo o resultado que é a recompensa que faz toda mulher sempre voltar. Do salão, algumas podem ainda dar uma passadinha no shopping, que na verdade pode se transformar em horas para investir em alguma coisa nova, qualquer coisa. Isso porque talvez inconscientemente acredite que o elemento novo tenha um poder mítico sobre a autoestima, uma espécie talismã de boa sorte - só pode! [Vou me abster]. A maratona termina em casa, e termina literalmente com as duas mãos sobre a cabeça, dizendo que não tem roupa! - enquanto olha pra montanha de roupas jogadas sobre a cama.  Sem falar nos sapatos, bolsas, maquiagem etc, em que muitas investem mais um par de horas, e o chão do quarto, a esta altura, já virou depósito. Quem já não viveu algo parecido com a via crucis das vinte e quatro horas que antecedem o encontro fatale?

E o investimento quando o encontro é com aquele outro sujeito, tipo assim: não-preenche-os-requisitos- mas-vou-lá-mesmo-assim.  
À unanimidade, a resposta foi: zero! Talvez o gasto máximo seja no consumo de alguns mililitros daquele gloss perdido no fundo da bolsa, considerando que a necessaire de maquiagem ficou na bolsa usada no dia anterior. Sem pit stop, sai direto do trabalho para o encontro.

Resultado desses encontros: Em regra, insucesso pleno com o sujeito interessante, e sucesso total com o sujeito desinteressante. Este último, em geral, acaba arrastando uma carreta bi-trem pela despojada e despretensiosa pretendente; se joga aos seus pés. É o cara literalmente afim. Não dá sinais em códigos cifrados, criptografados ou subliminares como fazem aqueles que não se interessam por você, este simplesmente declara com todos 'erres', 'esses' e 'eSseeMeeSses' que você é a mulher da vida dele!

Não tem Lei de Murphy neste negócio. As coisas simplesmente são. Com o tal sujeito interessante, a sujeita joga no lixo a espontaneidade e na carona o melhor de si. Se deixa dominar pela tensão da expectativa e mete os pés mão nos artifícios que passam a comandar a cena. Não é ela, ou é a sua parte de que menos gosta quando se olha no espelho da verdade e sente certa repulsa - ou ri de si mesma - quando se vê. E pensa que não fosse a bebidinha que embalou o encontro chegaria em casa procurando um relaxante muscular - contra as contraturas fruto das horas sobre um palco que, em sã consciência, se negaria a subir. Passam os anos, não adianta, não se livra da ascensão e morte que representam aquelas estreias e declínios súbitos da estrela. É que ali não foi possível simplesmente ser.
Quem (se) aguenta? Ou quem se encanta?




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quinta-feira, 23 de junho de 2011

De abismos e promiscuidades









E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado.
Não será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.
[Manoel de Barros]





Ando, inclusive, às voltas com meus abismos.
Promíscua,
transando com meus fantasmas.
Computando novas tatuagens em minha alma,
pois sigo,
escancaradamente,
exposta.
[MJ]



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domingo, 17 de abril de 2011

Por liberalidade





Assim como a primavera, eu me deixei cortar para vir mais forte.
                                                                             
                                                                                        [Clarice Lispector]



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