quinta-feira, 23 de junho de 2016

Mulheres aparentemente blindadas






A difícil tarefa de se fazer entender. 
Poucos sabem que o "seu melhor" está na arte de comer a cabeça destas mulheres.


terça-feira, 7 de junho de 2016

Tatuagem







Quero ficar no teu corpo
feito tatuagem
que é pra te dar coragem
pra seguir viagem
quando a noite vem...

E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes



sexta-feira, 3 de junho de 2016

Nocaute


O Sonho, Pablo Picasso



Quando o[u]vi fui à nocaute

Me acorda, antes de tudo 
e de mais nada
[antes que me libertem das ganas-letargia que
tem sido morar em ti]








domingo, 29 de maio de 2016

Marcha das Flores, porque doi em todas nós



Não nasci imune à tanta transgressão daquilo que nos pôs de pé.
Ereta deve ser a alma dos hominídeos - homens e mulheres que parem filhos machistas;
homens e mulheres que educam futuros políticos nas salas de jantar.






 









Marcha das Flores - 30 contra todas.Brasília, DF, 29 de maio de 2016. 
Fotografias: Mitzi e Mídia Ninja



sábado, 21 de maio de 2016

Como_vida


A  Árvore da Vida, Gustav Klimt


Viviane Mosé

"Quando fui fazer prova para professora
em uma grande universidade federal, fui reprovada
porque me acharam muito sensual

você pode ser bonita, mas não pode ser sensual se quiser ser 
uma professora ou uma pensadora

Ser gostosa não é ser magra,
ter a bunda dura e peito grande. 
Ser gostosa é ser sensual. 
E ser sensual é querer comer 
e ser comido pela vida
que é o que me caracteriza

Eu sou movida a vapor da vida
Eu sou uma locomovida
Eu sou movida à vida
Eu sou movida a vapor
à gente
a coisas
Como as coisas e sou comida por elas
Por isso eu acho que sou 
gostosa,
e muito"










terça-feira, 17 de maio de 2016

Tática e estratégia *



Hope Gangloff


Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és
minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti
minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos
minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

         Mario Benedetti





terça-feira, 10 de maio de 2016

Res publica






Divertidíssima a reação da imprensa com os dois fatos que abriram e fecharam o 9 de maio - pela manhã foi hilário assistir a artilharia pesada da Globo repisando, incansável, a ficha suja do deputado Waldir Maranhão, como se heroi da esquerda fosse. Já nasceu morto. Divertido acompanhar a imprensa em mais uma ofensiva de guerra, contra toda a esquerda, pois deu para perceber o calafrio com a possibilidade de virar moda golpes sobre o golpe. A diversão, mesmo, está sendo a reação dos apoiadores do golpe indignados com o quase golpe sobre o golpe, deslegitimando qualquer tentativa de golpe sobre o apoiado golpe, como se AINDA existisse alguma instituição funcionando neste País. Será que alguém ainda está levando alguma coisa a sério que venha das instituições deste País? 
Os abutres se debicam para garantir, aos seus, a coisa pública. Como disse Ciro Gomes, o golpe só será combatido com o povo nas ruas. É a única instituição de pé, por ora. 







Ecos do Planalto Central


Pôr-do-sol em Brasília, hoje - foto: Mitzi Raeder



Hoje foi um daqueles dias que a lei de Murphy foi providencial. Esqueci o celular em casa e trabalhei até as 20h. Mais de 300 mensagens e algumas poucas ligações, afinal raramente se usa telefone celular para falar. Mesmo sem telefone e sem tempo para navegar na internet durante o dia, claro que soube da decisão do presidente interino da Câmara, através de amiga-colega que soou o alarme no comunicador interno do trabalho. Já toda prosa pro impeachment de quarta-feira e vem esta bomba estraga-prazeres perto do meio-dia. Ironia, é bom registrar.
Olho o cerco e penso: eu e 54 milhões de brasileiros só queríamos que respeitassem nosso voto. 'Só'. Antes e mais que isso, só queríamos que nossa jovem democracia seguisse seu curso desde a redemocratização. 'Só'.
Quando há muito ficou claro que, sob o manto do combate à corrupção, a intenção velada era apenas apear um partido do poder e tornar Lula inelegível, esperar mais o quê deste circo? Depois que assistimos de camarote os desmandos de um juiz de primeira instância e de um presidente da Câmara, ambos (in)devidamente apoiados pelo próprio STF, agindo como se inexistissem ritos institucionais, tudo que aconteceu desde 2014 e assistimos agora, para mim, foi, é e será pantomima daqueles que pretendem ascender ao poder e daqueles eleitores que querem vingar as sucessivas derrotas nas urnas.
Assisto ao circo pegando fogo e nada mais me surpreende. Hoje, mais um espetáculo. Não foi o pôr-do-sol que querida amiga clicou em Brasília, nem a eventual síncope de nacionalismo que acometeu ao presidente interino da Câmara Federal. O principal deles está sendo observar a inversão de papeis. Lembra aqueles relacionamentos em que um do par tem o dom de enlouquecer o outro. Aquele tipo que tem o super poder de inverter posições, fazendo da vítima o algoz durante a D(iscussão)R(elação). Como diz uma sábia amiga já idosa, se for para roubar, que seja para fazer da vítima o mal-feitor e que ele vá em cana no teu lugar. Não tem milagre nem santo neste negócio, mas assistir os moradores do serpentário bebendo do próprio veneno até que está sendo bem divertido. Não pensei que chegasse a tanto. Não falo da capacidade dos golpistas, mas de eu achar graça em alguma coisa que venha disto tudo.
Por falar em diversão. Já em casa, recuperado meu celular, retorno ligações e mensagens. Num dos retornos tenho que ouvir xalálá, convidando pra jantarzinho na semana, e tal. Veio de mais um dos que 'não vê a hora daquela mulher descer a rampa do Planalto e tudo voltar à normalidade. E não vamos falar disso, porque isso não importa'. Ah tá. Legal. Viva a diversidade de ideias! - assim não rola nem jantar. É mais uma vez o caso. Dito e redito, mas não compreendido, me convenço de que meus nãos devem estar impressos em braile. Ou, quem sabe, talvez Cunha tenha feito escola também nesta seara, irrompendo os códigos que regulam os procedimentos para atingir os objetivos - que são só seus, não meus, nem nossos.





quarta-feira, 20 de abril de 2016

Gente distraída




Rescaldo da noite com amigos, bebendo vinho, lendo poemas e fazendo riso para aliviar as horas do País que nos põe tensos, tesos, sisudos. Recebi as fotos embrulhadas em poema musicado. No que me toca, agradeci, com a ressalva de que não sou pra tanto. É que, de fato, amei, mas no entanto

Quisera a gente [se] escolhesse
quem escolhe a gente
conhecesse a magia
de ordenar com o dedo em riste
ditar o rumo e o prumo
dizendo a quem abrir a porta
Quisera
mas no entanto


      ooOoo

Poema musicado
Trova (Aonde Flores)
Zeca Baleiro

No céu azul nuvens nuas
No teu olhar céus febris
Passos maiores que as ruas
Canções que eu nunca fiz

Tu pisavas distraída
por entre os carros sem dor
andando pela avenida
como se andasse num andor

Pra onde fores eu vou
Aonde flores eu fujo
Te dou meu poema sujo
que eu não sei fazer toada
Menos que se quer é tudo
Tudo que se tem é nada





sábado, 13 de fevereiro de 2016

Que a gente se acabe







Bons vinhos têm disso, assim como os anos equilibrados sobre saltos altos
Quando festejam os 40, 50, reiteram alguma certeza
de que é preciso bem pouco para a razão falar mais alto;
e um tantíssimo mais, em doses nada sutis
para a elucubração juvenil ter vez no território em que instalado
- a duras e doces penas - seu império das emoções

Que a gente se acabe

como fazem sempre
quando comemoraram
beberam naquela noite
como se fossa a última
dançaram como se acabam estrelas
do sapacuí center dance
nas noites de verão
riram, feito criança ri
das cenas do circo
da fala dos palhaços
como adultos riem
dos incautos

acordaram bem
porque já sabem fazer acordos
com Eros e Psiquê
Apolo e Dionísio
bem acordados e banhados
do que dá sentido
vestiram as peças íntimas da alma
saltos altos, ternos
e a vida seguiu
fluída, sem ressaca
nem dor nos calos
já sabem o que serve
é digesto, veste e
lhes cai bem