quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Jogando âncora - onde tenha sol





Ah! Sempre ele
O tempo
Senhor do destino, do imponderável
Ah! sempre elas
As datas
Senhoras dos movimentos, ações
Ah! E eu
Correndo, desdobrando-me
Acelerando, redirecionando
Alinhando-me a eles, tempo, datas...
Tudo tão intenso - e cíclico.

Embora a ordem e forma das coisas
Embora os planos, os sonhos
A vida se faz no tempo presente
E bem agora faz-se o tempo de jogar âncora:
Férias.
É nesse doce balanço que sigo daqui.
(Por que é no balando das horas que tudo pode mudar! E sempre muda, muito muda de lugar.)

Antes de voltar de lá, deixo aqui meu  desejo de um Natal de celebração do carinho e afeto, torcendo para um Ano Novo de felicidades, na exata medida da capacidade de alcançar os sonhos sonhados.

Experimentem-se mais em 2011!

 Janice.


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domingo, 12 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Do caso Wikileaks


Foto: Pierre Jahan (1909-2003)

Registro aqui o caso Wikileaks, que, pela dimensão, representa um marco nos interesses do planeta. Recomendo a leitura diretamente do blog O Escriba em razão dos inúmeros links que fundamentam o artigo. Segue o link:

De qualquer forma, a íntegra a seguir.



Eu também vou falar sobre o Wikileaks
Dezembro 7th, 2010 (No views )


"O poder controla cada cidadão, mas cada cidadão, ou pelo menos um pirata informático – qual vingador do cidadão –, pode aceder a todos os segredos do poder." (Umberto Eco sobre o caso Wikileaks)
 
O caso Wikileaks tem dominado o noticiário on e offline desde que os caras começaram a vazar detalhes das conversas, impressões e articulações de diplomatas americanos - de outros países - pelo mundo, mostrando o que realmente há por trás da cortina da geopolítica mundial. A imagem não é nada bonita mas em vez de discutir os procedimentos revelados pelas mensagens vazadas, resolveram partir com tudo pra cima do fundador da Wikileaks, o australiano Julian Assange, hoje preso na Inglaterra acusado de ofensa sexual grave na Suécia (transou sem camisinha com uma mulher no país nórdico - lá isso é crime e dá cana). Uma armação descarada.

Mas enfim, há muito texto por aí que dá um bom resumo sobre o caso - como este da Carta Capital. O jornal inglês The Guardian foi, a meu ver, quem melhor soube organizar os dados vazados pelo site Wikileaks - aqui a íntegra, aqui compilados segundo critérios depurados (nomes, locais, situações).

O que me levou a escrever o post no meu cada-vez-mais bissexto blog foram dois artigos fundamentais sobre não só o Wikileaks mas liberdade na internet e futuro do compartilhamento de informações. Um é este editorial da revista Wired, que crava: o site Wikileaks e seus métodos são bons para a democracia.

Já o francês Libération traz artigo brilhante do escritor Umberto Eco, em que explica como o caso Wikileaks escancarou a hipocrisia que rege as relações entre Estado, cidadão e os meios de comunicação, e pode provocar mudanças significativas na relação do poder com a internet. Leia aqui.

Ah, sim: o caso também desfaz de vez a ilusão de que a internet é 100% democrática. Não é. Basta você incomodar os poderosos para que eles ponham suas asinhas pra fora e você seja defenestrado - discretamente ou não. O site original do Wikileaks saiu do ar por ataques de negação de serviço (DoS), sites auxiliares foram desligados porque as empresas que davam o espaço alegaram conflito com seus termos de serviço (a Amazon, por exemplo) e empresas de cartões de crédito e de pagamento online como a PayPal, por onde o Wikileaks recebia doações, se negam a recebê-las agora. O sistema, quando se mexe, é crueeel....

Mas a internet é uma beleza justamente porque consegue quase sempre se transformar num campo perfeito para a ação de guerrilha. Centenas de pessoas emprestaram seus domínios para hospedar o Wikileaks e seu conteúdo. Você pode derrubar um, dois, até 20, mas outros 50 vão aparecer e fazer o mesmo. Já 'elvis', os dados estão no ar e ninguém tem mais como tirar.

É a boa briga de sempre entre Davi e Golias.

ADENDUM: Acabei de ler mais um bom texto sobre o caso Wikileaks. É mais uma vez do jornal The Guardian. Um trecho:

É uma revolução, e todas as revoluções geram medos e incertezas. Caminhamos para um Novo Iluminismo da Informação? Ou a revanche daqueles quer querem manter controle a qualquer custo nos levará a um novo totalitarismo? O que ocorrer nos próximos cinco anos definirá o futuro da democracia no próximo século. Por isso, seria ótimo que os nossos líderes respondessem aos desafios de hoje com um olhar sobre o futuro.

A íntegra aqui.

(porque tenho a desconfiança de que nunca vou ler um texto como esse num jornal brasileiro?)

Já para Emily Bell, professora de jornalismo e diretora do Tow Center na Universidade de Columbia, e ex-editora-chefe do guardian.co.uk, as informações vazadas pelo Wikileaks marcam um momento crítico para o jornalismo, o ensino da profissão e sua prática:

Journalism is not just an intermediary in this, it is part of this. Journalists need to know what they think about the mission of Wikileaks and others like it, and they need to know where they would stand if the data dropped onto their desks and the government pressured them to be silent.

Leia o artigo dela na íntegra aqui.

ADENDUM 2: Mais um texto fundamental, desta vez da Rolling Stones sobre Jacob Appelbaum, o cracker por trás do Wikileaks. Trecho:

Em julho, pouco antes de o WikiLeaks divulgar os documentos confidenciais da guerra do Afeganistão, Assange deveria fazer a palestra principal na Hackers on Planet Earth (HOPE), uma grande conferência realizada em um hotel de Nova York. Agentes federais foram vistos na plateia, presumidamente esperando Assange aparecer. Só que quando as luzes se apagaram no auditório, não foi Assange quem subiu ao palco, mas sim Appelbaum.

"Olá a todos os meus amigos e fãs em vigilância nacional e internacional", começou Appelbaum. "Estou aqui hoje porque acredito que podemos fazer um mundo melhor. Infelizmente o Julian não pôde vir, porque não vivemos nesse mundo melhor agora, ainda não chegamos lá. Queria fazer uma pequena declaração aos agentes federais no fundo da sala e para aqueles aqui na frente, e serei muito claro: eu tenho comigo, no bolso, algum dinheiro, a Declaração dos Direitos e uma carteira de motorista, e é só. Não tenho um sistema de computação, nem telefone, chaves, nenhum acesso a coisa alguma. Não há motivo absolutamente algum para me prender ou me incomodar, e caso vocês se perguntem, sou um norte-americano, nascido e criado aqui, que está descontente com como as coisas estão." Fez uma pausa, interrompida por aplausos ensurdecedores. "Citando Tron" acrescentou, "'Luto pelo usuário'".

O cara é bom pacas no que faz, como vc pode conferir no texto aqui. Já trabalhou para a Rainforest Action Network e Greenpeace EUA e agora trabalha para o Tor Project (um software que garante o seu anonimato online) e Wikileaks. É um ativista anarco-libertário, que tem como mantra apenas uma coisa: a comunicação livre de vigilância:

Qualquer pessoa em qualquer lugar deveria poder falar, ler e formar suas próprias crenças sem ser monitorada. As coisas tinham de chegar a um ponto no qual o Tor não é uma ameaça, e sim utilizado por todos os níveis da sociedade. Quando isso acontecer, venceremos.

ADENDUM 3: E a tal Anna Ardin, heim? Ela é uma das moças que acusou o Assange de crime sexual. Ela tem se empenhado em apagar tweets e posts em blogs que revelam muito mais do que disse à polícia sueca. Na investigação que um abnegado fez pela internet, descobrimos que ela estava feliz da vida por ter 'fisgado' o ativista australiano. Depois, mudou de atitude. Quem é essa figura? Bom, sabe-se que é de origem cubana e tem ligações com grupos anti-castristas e ligados à CIA. É filiada atualmente ao Partido Social Democrata sueco. Aqui tem uma foto dela. E o seu twitter (@annaardin) parece ativo ainda - mas com o conteúdo protegido.

Essa mulher ainda vai dar o que falar...
(se você chegou até aqui e ainda tá com vontade de ler mais sobre o assunto, visite meu perfil no Delicious. Coloquei dezenas de links para artigos publicados em jornais e revistas de todo o mundo. Os bons jornalistas estão deitando e rolando, produzindo um material delicioso de se ler. Destaque para os textos de dois dos meus preferidos: Pepe Escobar (Asian Times) e Robert Fisk (The Independent).

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Excelência em provocação



Arte: Gottfried Helnwein


Tem vezes que escalo
Noutras sou escalada
Tem vezes que me abandono
só prestando atenção
Noutras,
putz!,
abandono de antemão.

A ideia é a seguinte
saber a medida das ideias que,
por excelência,
são  pura provocação.



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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Pensar social - dever-saber



Publicação da obra mediante autorização do autor:


O que mais assombra a mim não é o vulto da criminalidade, e sim a ignorância daqueles tidos como 'incluídos' ao cegarem à origem da violência. Contribuem, com sua omissão, para a manutenção do modelo excludente. Ao fim, reclamam unicamente das consequencias, sem chamar para si a responsabilidade na causa.
Omitem-se ao não clamar por medidas urgentes de inclusão social, esperando solução através de equivocada visão do Estado (polícia).

Dever-saber:
Desigualdade social=exclusão social=origem do crime.
 
 
 
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sábado, 27 de novembro de 2010

Acerca dos véus





Apreende-se o outro a partir dos véus que colocamos sobre nosso olhar. Há véus pendurados pelo inconsciente. Outros pelo capital simbólico da informação que nos chega - julgados concientes, voluntários. Há ainda aqueles que se conjugam involuntários. E convidados a refletir sobre estes últimos, vem o outro, invade nosso particular armário de inúmeros cabides de véus coloridos, mistura-os, combina, escolhe alguns e, a seu gosto, parece ordenar: veste estes. Aderimos ou não, por liberalidade.

Conheces, então, teus véus?
É nossa função saber sua matiz, texturas, densidades para, no espetáculo da dança da vida, ter algum domínio do resultado de suas conjugações - tanto quando se está no palco, quanto na plateia, assistindo a interferência do outro.

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domingo, 21 de novembro de 2010

Resignificando o beijo

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Um dia resignificamos o beijo.
Boca tem que deixar o registro do outro.
Quantos registros você guardou aí?

A boca que me serve para beijar
Come antes minha cabeça - pelas ideias.
Palatáveis, mexem com as entranhas.
Registrou. Clac.
Pra sempre na memória.




Poderás gostar também: O olhar que beija
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Micro-teses: casamentos duradouros

Miró


Elas casaram-se na adolescência, aos vinte e poucos, e o casamento persiste.
Hipóteses:


Era casada com o homem-olhos-somente-nela. Ele não enxergava os filhos, nem o próprio trabalho, nem nada, muito menos a si. Cansada de tanto ninar aquele filho mais velho, a libido se esvaiu. Pouco importava, nascera para ser mãe.


Era casada com o homem-agenda. Garantia de despensa abastecida e cartão de crédito sem limite. Só não conseguia garantir a presença dele, nem o amor - que dedicava à outra. Cartão de crédito e competição com a outra, a faziam consentir. Casara com a amante dele e nem sabia. A autoestima talvez nunca tivesse morado ali.


Era casada com o homem-sexual-fiel. Se cozinhava, uma mão a bolinava. Se ajeitava a casa, os olhos a devassavam. Se tomava banho, a boca murmurava genuínas frases de peão de obra. Se deitava na cama, era dever todos os dias travestir-se de mulher-robótica. Era um orifício. Nem sabia que subsistia sem outro alguém.


Era casada com o homem-sexual-infiel-sem-critérios. Flores, presentes, bom marido, bom pai, bom profissional, bom amigo, bom tudo. Pelo discurso dele, era perfeita aos seus olhos. Ela acreditava, e todas as outras quaisquer 'umas' também. Preferia não saber. Persuasivo e admirável, ela escolhia cegar, calar e ensurdecer quanto ao mais. Só esquecia de torcer para, no futuro, o corpo não responder, doente.


Era casada com o homem-diferente. Diferenças nos gostos, nos hábitos, estilo, nas escolhas. Apostou na máxima os opostos se atraem. Só não sabia que os opostos se distraem e os dispostos é que se atraem. Desconhecia que só muita boa vontade ou terapia para cessar o looping da teimosia.


Era casada com um homem-simplesmente-homem. Respeitavam-se mutuamente. E o sentimento persistiu ao longo dos anos por conta dos acordos tácitos que foram firmando e renovando no transcurso da vida a dois. Eram honestos em tudo, talvez até na mentira.




Nota - Micro-teses para casamentos iniciados na juventude, em que as escolhas são feitas a partir de atributos de valor que pouco dizem respeito às características de personalidade propriamente, as quais seriam decisivas na manutenção do vínculo e ampliação do afeto. Apesar das livres ideias, sempre bom esclarecer.


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domingo, 7 de novembro de 2010

Olfatos




Olfatos são assim como que... cheiros?
Cheiros remetem a devaneios do ente
[ou doente somente o ente?]

Cheiros remetem a viagens - no tempo -,
deslocam a lugares, momentos.
Experiências há muito, há pouco,
há qualquer hora,
há qualquer tempo
vi_vidas.

Olfatos congelam,
aproximam
repelem
entorpecem
exercem
Enfim, há argumento!
                                      [MJ, 2003]

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De tão lindo me doi




Espetáculo Riverdance - sapateado irlandês



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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Pessoas interessantes


Print: Alex Andreyev


As pessoas mais interessantes são os homens que têm futuro
e as mulheres que têm passado. [Oscar Wilde]

Futuro para seguir tentando desvendar os segredos;
passado para compreender as diferenças.
É uma forma, não seria Oscar?



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sábado, 30 de outubro de 2010

À Feira




"Um público comprometido com a leitura
é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável,
e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias."
(Mario Vargas Llosa)


Reverência à Feira do Livro de Porto Alegre - de 29.10 a 15.11.2010.

Mecanismo de inclusão social: para cada brinquedo de presente, um livro. (MJ)


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domingo, 24 de outubro de 2010

Das observações do universo feminino - Tese das elucubrações





De tanto servir de ombro e ouvidos para mulheres das mais variadas idades, concluí algumas meias verdades. Se tem uma coisa que me incomodada são os discursos generalistas femininos de que homens são todos iguais. Em outras palavras, em bom português, esse discurso quer dizer que eles não prestam. Elas as vítimas. Eles os algozes.

Visto aqui de longe, me parece que exista uma singela explicação para o fenômeno. Que, aliás, costumo repetir para as mulheres que me trazem suas queixas sobre os meninos. Vou parecer taxativa demais no meu discurso a seguir, mas pretendo apenas navegar superficialmente sobre a regra. As execeções merecem todo o meu respeito, ressalvando as inúmeras outras verdades existentes, que ficam aqui de fora.

A regra é simples. Mulheres têm destas coisas, conhecem um fulaninho pelos caminhos da vida, o tal sujeito aparentemente preenche os requisitos para ocupar o cargo do 'pra sempre, enquanto dure', e é o que basta. Foi dada a largada para o grande tormento de dúvidas e elucubrações sem fim.

Tem um porém, uma particularidade que justifica [para elas próprias] os papeis de vítima e algoz: ele é 'o cara' para ela, mas ela não é 'a cara' para ele. A condição narcísica não a deixa ver essa obviedade cristalina. Aqui a origem do discurso que generaliza.

Dentro dessa perspectiva feminina, sem se dar conta de que ela não é 'a cara' para ele, o script será hilário. Evidentemente que cabe aqui uma ressalva ao resepeito que merecem a angústia e o desespero das meninas - mas nem por isto será menos patética a cena da vida privada quando se assiste de camarote.

Elas sequer se dão conta. É um processo incontrolável. Durante o limbo entre o dia que se conheceram e o próximo ou próximos encontros, a mulher entra em uma espécie de estado de decomposição. Se desintegra para o resto à sua volta, fica capenga, despendendo boa parte de sua energia e capacidade de pensar no que poderá ser o próximo passo dele, a próxima jogada. É a dança do acasalamento - no caso, no sentido stricto, praticada por um só.

O engraçado do processo é a capacidade de construção feminina. Em outras palavras, no bom português novamente, veem pêlo em ovo. 

Ele até liga no dia seguinte. Isso não quer dizer nada, homens já aprenderam um bocado sobre as queixas femininas, então já se dispõem ao menos a cumprir o roteiro da boa educação no day after. Se ele ligou, ela lê da atitude um sinal.

Ele até chama para sair de vez em quando. De novo, isso não é medida de interesse. Homem sempre sabe quando a mulher está na dele [o inverso também é verdadeiro], por isto, na falta de programa melhor, ou necessidade de manter a média mensal de satisfação física, ou para elevar a autoestima etc, ele já sabe para quais da lista ligar. Se ele chama, ela lê disto um sinal.

Enfim, o fulaninho, inocente nesta parada, vai cumprindo um roteiro que dá margem para a fulaninha elucubrar. E o ápice da torpeza delas são as entrelinhas. Insistem não saber que não há entrelinhas, mas mulher focada em um homem será exímia nisso. Exemplo? Ele comenta en passant que no final de semana seguinte terá lua cheia. Pronto. As entrelinhas. Sucessão de 'serás'. Será que é porque ele vai chamar para assistir o espetáculo celestial? Será que pretendeu que ela tomasse a iniciativa da proposta? Será que ele quis se mostrar um romântico? Será que para ele astronomia é tema relevantíssimo e então ela devesse falar mais sobre o fenômeno? 

Não será nada. E as outras hipóteses só serão o que ela precisa acreditar que seja, menos o óbvio. Ou seja, vai fazer noite de lua cheia! E ponto final. Não tem nada por trás disso. Se tivesse, ele diria.

A questão é singela. Homens, ou mulheres, quando querem, querem. Ponto. Não deixam margem para dúvidas. As atitudes são cristalinas. Investem direta e certeiramente, mesmo aos trancos e barrancos como alguns costumam agir, mas dizem a que vieram. Desconfiam da incerteza, mas apostam. Se não for assim, esqueça. Não é.

Como não é? Para as desavisadas, existe um menu básico de perguntas e respostas que contribui para não entrar no processo do tormento da elucubração. Veja-se alguns exemplos:

1.Some nos finais de semana? É a clássica das clássicas. Dispensa outros comentários

2.Liga só no fim da noite, depois da festa? Está na vida, e não pegou nada melhor.

3.Não investe em programas a dois em que a cama não seja o foco principal? A cama é o objetivo único.

4.Não a introduz no seu grupo depois de dois meses saindo juntos? a) é cedo demais para ele; b) pode ter cunho de vergonha em mostrá-la; c) tem outra que frequenta o grupo; d) N outras alternativas. Pouco importam quais sejam. Não introduziu. Não quer. Ponto.

5.Não chama para viajar? Muitas horas para administrar a convivência.

6.Não programa um cineminha, teatro ou show? Programinhas que chancelam o 'romance' conflitam com o objetivo do rapaz.

7. Para os casos em que ela é mais velha [bem mais velha]: Ele não anda de mãoszinhas dadas no shopping?  Dispensa comentários. Quem aprecia diferença de idade tem que conhecer o submenu básico da diferença de idade.

8.Ele não liga nunca e quando liga justifica a ausência na falta de tempo, correrias e afins? [Essa é a hors concours das desculpas.] Ele acabou de subestimar a inteligência da moça, pois quer fazer crer que é um alienígena, alimenta-se de luz, e, portanto, não vai ao banheiro jamais!- hora bem adequada, aliás, para dar um 'oizinho' apenas, quando deseja verdadeiramente se fazer presente, mas, de verdade, não tem tempo.

Se as respostas forem sim, esqueça. Não é. Você não preenche os requisitos dele.

Conclusão. Nada de ver nestes homens os algozes. São na verdade vítimas. É que eles não têm culpa daquela mulher não preencher os seus requisitos para ocupar o posto do 'pra sempre, enquanto dure'. Nada de errado nisso. Nada de errado com ela, nada de errado com ele. Gosto é gosto. Mas nem por isso o moço é impedido de sair com a moça de vez em quando, o que não pode dar margem para concluir nada além de uma saída descompromissada.

O problema é um só. Mulheres elucubram demais em situações em que não há espaço para 'viagem'. Essas questões são preto-no-branco, pão-pão, queijo-queijo. Não tem voo solitário, é a dois. O interesse dele não é eventual, é constante. Mesmo que ali na frente um dos dois veja que não tem futuro, mesmo assim investe [aliás, em média são necessários três meses para ter uma pequena noção se vai virar romance, antes disto é suicídio qualquer aposta mais significativa. Ria, pode rir. Pois não é que tem gente que diz que ama em um ou dois meses de 'namoro', pode? Pode, embora não exista métrica para as questões do coração, a carência justifica muita precipitação, causando as clássicas confusões lá frente].

Enfim, retomando o mote da postagem que são os sinais iniciais do interesse, quando 'é' não tem muita margem para a dúvida. Demonstram a que vieram ao responder não para o questionário do menu básico de perguntas e respostas acima.

Ressalvadas as exceções, portanto, não dá para se postar de vítima. E não é nada inteligente ficar falando mal dos homens por aí, muito menos sacar da arma letal, chamada telefone celular, e ligar de madrugada só para extravasar a mágoa que ele nem sabe que causou. Não dá.

A singeleza do quadro 'a vida como ela é' está no seguinte: homens não são todos iguais [assim como mulheres], você que não é o número dele[a]. Mas nem por isso você não será 'a pessoa' para outro alguém. Questão de percepção e autoestima. Para quê complicar?


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sábado, 16 de outubro de 2010

Minha moeda de troca




Minha moeda de troca são ideias e atitudes.
Ideias de quem faça diferente, faça a diferença.
Dispense tratamento desigual, para igualar a diferença.
Atitudes alinhadas à aceitação.
À compreensão
De que há muito a ser feito
a ser descoberto,
A qualquer tempo, pois crescente
- embora a finitude.

Troco com quem conjuga o verbo no tempo presente, porque faz.
Constroi a liberdade.
E faz-se livre nos exatos limites da liberdade alheia.
Não tão insanos a ponto de feri-la,
Nem tão sanos a ponto de temer o rompimento com o tido normal.
Porque normose sugere 'mornose',
É quase quente, é quase frio.
É quase algo
Um nada ser.

Troco com quem diz sim.
E com quem diz não.
Porque o talvez não posiciona.
E não posicionar
É não dar a conhecer.
É estático, amorfo.
[Embora movimento hoje
não guarde relação com falas,
signifique apenas girar
a moeda circulante.]

Troco com quem duvida do absoluto,
Rejeita o estereótipo,
Acolhe a ideia de boa-fé de todos os atos.
E onde houver desalinho,
Não sentencia
Sem antes dar a saber
A origem do desajuste.

Troco com quem enxerga para além do cotidiano,
Mas que vislumbra a graça da rotina.
Que faz no presente, e sonha o futuro.
Ciente de que é corrente.
Que tudo muda de lugar.

Troco com quem não nega o passado,
Que encontra força e valor
Quando compreende ser ele substância
Do agora e do porvir.
[Qualifica o ser,
e o vir-a-ser?]

Troco, acima de tudo, com quem sente.
Quando sentir é capacidade, desejo
De acarinhar tudo que faça
Tudo na volta,
Todos à volta.
De amar.

E por saber do amor,
Compreende o cáustico no olhar
E na língua
- que falam.
Ciente ser o ácido
Elemento circunstancial
- por  passageiro.
Como passageiros são os alvoreceres
As fases da lua,
O movimento das marés.
Assim como os amores que pareceram
E por parecência
Deixei ir.
- e os que se fizeram
guardo até hoje
dentro [e fora] de mim.

Troco com quem vê o mundo para além do universo individual.
Troco por substratos.





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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Quer o quê de mim?

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"Caço olhos como Ernest Hemingway caçava tigres. Os bonitos, guardo em delicados aquários azuis. Os frios, como lâminas bimetálicas, prego em telas que imitam Basquiat. Os arrogantes, desde que não sejam de pop stars, destruo com balas dundum. Os normais demais nem valem o esforço de ser retirados das órbitas.
Quem me olha assim quer o quê de mim? Conversar? Saber se sou fã de Sean Penn? Se vou pegar um avião amanhã e ver a ressaca do mar na Praia do Arpoador? Saber o meu signo? Oferecer sexo quente e seguro? Convidar para ouvir Kings of Leon na madrugada? Me mostrar poemas de desespero? Pedir o número do meu celular e ligar antes de se atirar do 14º andar?"



[Excerto de texto publicado originalmente na coluna Hagamenon Brito, no jornal CORREIO -assim me foi repassado, desonhecendo a autoria.]




terça-feira, 12 de outubro de 2010

Das observações do universo feminino - Tese dos brinquedinhos


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Depois que uma mulher chega à fase adulta, e com sorte se fizer adulta, uma fonte de diversão pode ser ter um brinquedinho. Mas para saber se divertir com um é requisito ter bem claras certas normas e as funções.

Brinquedinhos se prestam para a fase da entressafra das relações, em que a mulher escolha passar uma temporada sozinha ou esteja garimpando o próximo, que espera seja o 'pra sempre, enquanto dure'.

Brinquedinhos terão duas principais funções, das múltiplas que poderão desempenhar. A função primeira é garantir prazer. Precisam estar empenhados em dar prazer. Isso é simples, pois é item de série, vem de fábrica. É o mais fácil de encontrar no mercado. Se prestar bem atenção dá em árvores, é só chocalhar os galhos que cai meia dúzia ou mais. Dos relatos das mulheres, dizem que todos vêm com o mesmo manual de instruções, repetem os mesmos procedimentos e com muita dedicação. Aliás, é comentário recorrente, chegam a cansar de tanto empenho, desconconfiando as mulheres que eles ainda não tenham descoberto o ponto certo. Pecam pelo excesso. Tudo bem, enquanto brinquedinhos o defeito vira qualidade. Esses, pode-se escolher por tamanho, por textura, número, cor, cheiro, idade. Sim, idade. Eles são humanos.

Brinquedinhos humanos. Pode parecer, mas não tem nada de pejorativo. Pelo contrário, exercem especial papel e gostam do papel. Talvez pejorativos sejam os adjetivos que muitos dariam para interpretar o comportamento daquelas que se utilizam deles.

Brinquedinhos servem para os prazeres delas sem que sintam o desprazer e risco de pular de galho em galho, evitando a queixa feminina do vazio do day after. Brinquedinho é coisa séria. É fixo. E ele sabe dos limites do seu papel. Não tem jogos. Fazem acordo. É dita claramente a função e só é dita porque brinquedinho não serve para namorar, é só para brincar. Tem um gene que não permite mulher inteligente admirar, de modo a se apaixonar.

Embora dê em árvores, brinquedinho não é qualquer uma das frutas que caem do pé. Brinquedinho tem que ter afinidades. Vira amigo, às vezes até confidente. Por isso que brinquedinho é escolhido não só pela cor, altura e outros atributos físicos, mas intelecto também, senão não é brinquedinho.

Cada uma elegerá as características que julgar necessárias para fazer manter a parceria com o brinquedinho. Pode ser o engraçado, que faz tudo virar piada. O sedutor incorrigível, vulgo eleva-autoestima, que mexe com a estima até de poste na rua. Pode ser o bom moço, carinhoso, atencioso, sensível e que  seria quase um irmão não fosse o item de série encravado na genética da criatura. Pode ser o acadêmico-filosófico, ou apenas filosófico simplesmente, que ajuda a melhorar ou criar novas teses sobre... tudo.

Mas a fundamental função do brinquedinho é a segunda. Brinquedinhos servem, finalmente, para desacelerar a pressa de encontrar o namorado de carteirinha ou marido, pois afasta a cegueira da carência, que é a mão inimiga que conduz a autoestima para o centro da terra, fazendo fulaninhas jogarem-se no primeiro 'inho' que lhes acene com o dedo.

Diz a lenda que mulheres que sabem brincar conseguem observar mais calma e conscientemente, dentre aqueles que não dão em árvores, quem serviria para ocupar o posto de afim.
[Por ser lenda, melhor prestar atenção para ver se tem algum cunho de verdade nisso.]


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sábado, 9 de outubro de 2010

Bom é não ter certeza

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Para acompanhar almas inquietas
O bom mesmo é um passaporte estampado de inquietudes
Com carimbos de vistos a desafios apenas imaginados
Pois que a escolha do destino é sempre com base no inusitado.

Sei quase nada de tudo
e quase tudo me parece tão óbvio.


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domingo, 26 de setembro de 2010

No meu ou no seu?

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Fotografia: Cade Martin




O som do gatilho fez apertar os olhos e contrair todos os músculos do corpo. O disparo que pensou ouvir não foi do tiro e sim de lembranças.

Depois de ter palestrado em um congresso sobre políticas públicas e esticado a noite com alguns dos congressistas, ele fechou a conta no bar e dirigiu-se ao carro para voltar ao hotel.

Antes de chegar no estacionamento, a visão que teve foi de Erínias. Caminhava sozinha naquela madrugada fria pela calçada, mal ajambrada, no melhor estilo fim de festa. Trocava os passos que eram vistos muito marcadamente através de uma minissaia, que ficava ainda mais mini quando medida a distância entre a bainha da saia e o limite do cano das botas de saltos altos. Um casaco jogado sobre um dos ombros, segurado apenas pelo indicador da mão direita, enquanto a outra mão carregava os restos daquela noite - uma taça, um cigarro aceso e um molho de chaves.

Sob a luz do poste pôde ver. A pele era muito branca, contrastava com os restos de um batom roxo quase negro, que mostravam sinais de uma boca que ele sentiu vontade - de ouvir falar. Provocou:

- Agora que jogou fora o cigarro, tenho melhor destino para esta taça quase vazia. Ou posso simplesmente oferecer uma carona? Isso dá direito à RG, CPF, além de uma ligação para a polícia para levantar meus antecedentes criminais, se isto a deixar mais segura.

Erínias perdeu o ritmo da malemolência etílica. E ao invés de tomar o último gole que ensaiava, colocou a mão na cintura, apoiando a taça. Da boca que mordeu o lábio inferior e contraiu um sorriso, ele ouviu:

- Não pensei que a noite estivesse só começando. No meu ou no seu? Perguntou ela, apontando com o olhar para os carros no estacionamento, já imaginando que isto renderia mais uma anotação em seu diário de bordo da vida.

Foram muito além de apenas uma anotação. Junto dela, ele escalou o Himalaia, frequentou andares de estacionamentos abandonados, elevadores, Ilha de Páscoa, escadarias, poltronas de cinema e bancos de carro, além de render a despedida das Ilhas Maldivas. Acumulou milhas, experimentou outras culinárias e colocou na nécessaire um tubo de picrato de butesin para as novidades sobre carpetes. Casou-se com aquela irreverente, apesar de que seu ritmo de vida o fazia avesso a casamento.

Em seguida conheceu cólica menstrual, mau humor matinal, disputa pelo jornal, queixas domésticas sobre a necessidade de preservação do instituto matrimonial. Empenhado, não no casamento, mas sim em suas atividades, as palestras se multiplicavam e seu endereço, embora casado, seguiu sendo algum quarto de hotel.

A rotina ganhou novos desafios. Além de Erínias, quis manter Lola, Natacha, Suelem e a(o) Marcela(o), sob o pretexto da confraria do vinho, do charuto, do cheff, do parafuso, e afins. Tiveram o primogênito, o do meio e a caçula, sempre um ardendo em febre, braço quebrado, sarampo, catapora, ou pedindo algum carinho quando ele visitava o endereço-depósito chamado lar. Além de ter enfrentado maus bocados com algumas das razões de existir as confrarias. Por tudo, Erínias não aguentou, aconselhou-se com a melhor amiga Themis e decidiu separar. O casamento foi parar na justiça.

Enquanto a guarda dos filhos e partilha de bens eram decididas por algum juiz, ele, na mesa de bar, procurava fragmentos do afeto. Não achou. Esmiuçando a lembrança mais afundo, encontrou os sinais de um roteiro que achou fosse seu. Mas não. Na verdade era escrito, dirigido e protagonizado por ela, plenejado cada detalhe do que deveria ser a vida a dois. No final daquela lembrança teve uma clara visão. Era Erínias, fantasiada de senhora de seu destino e armada com cacos de uma taça, com o que lhe decepou o dedo anular esquerdo.

Era um filme de sua memória. Nunca imaginou que da mira daquele revolver, empunhado por um assaltante adolescente que invadira o bar,  teria aquelas tantas respostas.

Retomou a consciência do assalto pelos gritos daquele moleque, ordenando que deitasse no chão.

Respiração ofegante, quando esperava finalmente receber o tiro fatal, acordou. As lembranças, o assalto, as respostas, tudo, eram cenas de um pesadelo de que acabava de despertar.

Meio atônito com os detalhes que pareceram tão reais, foi aos poucos organizando as ideias e sentiu a sensação estranha de estar vivo, na mão esquerda lá estava, intacto, o dedo anular.

Ainda deitado, sem lembrar ao certo na cama de quê hotel, olhou para o lado. Sobre o travesseiro o telefone ainda com a mensagem na tela, a que havia  recebido pouco antes de mergulhar no sono que lhe rendeu aquele 

“Diário de bordo: Conferência Internacional sobre Inclusão de Direitos da Mulher encerra domingo. Desta vez conseguirei ficar duas semanas no Brasil. Organize sua agenda e reserve o espumante. Merecemos, pois, pelas minhas contas, será a primeira vez nestes 10 anos que conseguiremos ficar mais de 10 dias juntos. Não parece ótimo? Pergunta: no meu ou no seu, hotel? Erínias."

Jogou o telefone sobre o travesseiro. Em um movimento lento, levantou o braço esquerdo e foi abrindo a mão para observar. Fixou os olhos no dedo anular e lembrou, então, do último pensamento antes de adormecer naquela noite: ...há 10 anos atrás ela quis construir, eu não. Agora, cansado de quartos de hotéis, ela se reinventou. Sem espaço para nós.



*Nota: Erínias (ou Eríneas): deusas gregas que personificavam a justiça punitiva ou vingativa.



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Amizade





Hands Above 4



Nobre e rara, a amizade diferencia-se das relações a dois quando não padece da ditadura da libido nem da exclusividade. É a incondicionalidade que justifica a nobreza.


sábado, 11 de setembro de 2010

Validando o cotidiano

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Embora poucas situações me causem surpresa, muitas despertam minha atenção. Embora, ainda, tenha a alma inquieta e veloz, alguns fatos ou circunstâncias do cotidiano, desprezíveis pela maioria, são  capazes de me fazer fixar, por que não é raro o objeto da observação despertar uma corrente involuntária de percepções gratificantes.

Meu cotidiano, os atos e percursos que repito todo dia, deles não deixo escapar os detalhes. Gosto do banho que desperta, dos cremes e da olhadela no espelho para ver se está tudo em ordem. Do café da manhã, que pode ser café com leite ou toddy com leite, leite, muito leite, pão preto ou torrada com manteiga, ou uma banana às pressas. Enquanto isso, escuto as notícias sobre o trânsito e previsão do tempo, pois se é dia de óculos de sol ou é dia de sombrinha, posso escolher entre a jaqueta ou a blusa de alcinhas.

Chaves na mão, bolsa, celular e pasta, esperar impaciente o elevador para logo entrar contato com a luz do dia. Rua, início do dia deliciosamente frenético com promessa de prazeres por conta das expectativas de realizações. Sempre têm realizações. Gosto do que faço e por onde e para onde vou - das minhas escolhas.
Entrar no carro e ligar o som com música dance em volume alto suficiente para entrar no clima da  promessa.

A cada sinal fechado ao longo do percurso, chama a atenção as copas e enormes raízes aparentes e retorcidas das árvores que se espalham  pelas margens do arroio Dilúvio na Avenida Ipiranga.


Um especial olhar às inusitadas palmeiras da Califórnia, altíssimas, plantadas sobre a ponte entre as Avenidas Azenha e João Pessoa. Palmeiras sobre uma ponte? Não é incrível? Incrível mesmo talvez seja conseguir enxergar isso, pois muitos que por ali passam todos os dias nem veem aquela maravilha da natureza conjugada com uma linda obra de engenharia, idealizada por algum humano bacana.

E o florista na esquina da Borges, Eduardo, de quem às vezes compro rosas, para ele sempre acho um tempinho para falar de flores e outras coisas da vida. O tempo do semáforo naquela esquina é além da conta. Aproveito para fazer um afago através de falas ou do simples aceno que dou para aquele nordestino simpático, que veio para Porto Alegre apostar a sorte na vida. Mal sabe ele que a sorte é minha, pois a sua aposta colore o meu caminho.

Nas quadras que circundam o local do meu trabalho, tem o manobrista que por ali trabalha, o Gordo, e se o dia não é de sol, se vira vendendo guarda-chuvas. Dou bom dia àquele moço, que sempre me sorri e cumprimenta simpático, independente da meteorologia. 

E tem o moço do estacionamento, o Bernardo, um devorador de livros, mas que encontra nos bons modos a razão para erguer a cabeça e cumprimentar educado, fazendo algum comentário ou brincadeira, para logo em seguida mergulhar cegamente naquela leitura que me dá certa inveja - ler logo de manhã é privilégio de poucos.

A caminho do prédio, atravessando a rua, ainda tem o morador de rua, o Índio - ao menos assim é conhecido por todos, embora já tenha me dito se chamar Alex. Alcoolista incorrigível por conta da falta de compreensão de se tratar de uma mazela física, passa seus dias ali, distribuindo cumprimentos e recebendo alguma ajuda dos moradores ou trabalhores locais. Independente do seu estado etílico, quando me aproximo saúda com um "bom dia minha grande amiga, esta é a 'malhor' amiga!". Se não faz assim, então canta uma música, de que descofio seja a única que conheça. Sorrio e retribuo a saudação.

No saguão do prédio público onde trabalho, está o Vieira, do serviço de segurança. Um sujeito que com seu jeito ímpar torna a chegada no trabalho uma festa. Vai logo cumprimentando a todos com um sorriso contagiante, e aos que sabem receber carinho, estende a mão e toca. A minha mão, se não estiver carregada de processos, deixo beijar, pois não tem preço a delicadeza e gentileza daquele ser, um gentleman. Dia destes, aliás, disse que falta pouco para se aposentar. Pensei: minhas manhãs não serão as mesmas quando este dia chegar, mas por hora, para ele, vou tratar de retribuir os carinhos que fazem toda a diferença nos dias aloprados atuais.
Tem muito mais, mas assim começo o dia, que entre produções e projetos, realizações, sonhos e ideias, vou validando a vida com toda sorte de olhares.



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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Emagrecendo a saudade





Sartre e Beauvoir






Certa vez ouvi da boca de um sultão sobre a melhor das dietas para um distúrbio bem comum, porém complexo definir.

Não se trata daquela espécie de dieta que busca a perfeita ou adequada ordem física, mas a que ameniza a falta, compensa o vazio.Aplaca a ausência que não pode ser suprida, pois que cada um é um, e cada dois 'é' dois, diferente do cada dois que são simplesmente dois.

Dizia que essa ausência de dois que 'é' dois é eterna, não se supera, apesar de superadas as expectativas daquele 'a dois' convencional. Contou que se transmutaram em suas novas vidas, mas que jamais mudou a falta das horas das falas, das trocas de ideias pensáveis por poucos - talvez melhor expressadas por aqueles que melhor simbolizaram o 'dois que é dois': Jean Paul Sartre e a senhora de Beauvoir.

Dizia ele que essa ausência tem como efeito fazer engordar, aumentar as moléculas da falta, causando um dano grave e de largas proporções - não ao coração, mas no plano das ideias. Por isso, afirmava ele, para emagrecer essa ausência precisarão se ouvir e falar, para só assim diminuir a causa - a saudade.

Hoje emagreci a saudade.


Nós, para os outros, apenas criamos pontos de partida. [Simone de Beauvoir] - e versa-e-vice.

domingo, 29 de agosto de 2010

Fragmentos de aniversário

Gostei, também, deste presente.

"Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
Vida que não guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço
da vida.

Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor

Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa."

(Thiago de Mello - poeta amazonense)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gosto disso

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A ausência de evidência não significa evidência de ausência.
[Carl Sagan]

E selecionar a área abaixo, pode ser evidente?

Evidente que se pode ver além do que não está explícito,
há ausências que dizem bem mais que o simples não-estar, a princípio, manifeste.
[Maria Janice]


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sobrevivemos de quê?



Digo. São tantas as tormentas de ideias, vontades, buscas, contemporizações, projetos, correrias cotidianas, envolvimentos com o todo que nos cerca, mas até hoje [eu] ainda não conheci uma só alma que não busque a complementaridade no amor, com o fim de tornar este elenco de necessidades da vida mais leve, prazeroso, justificável ou suportável, risível até.

Pondero: há os que pensam querer, há os que desconfiam querer, há os que se alimentam apenas da busca, retroalimentando-se desta [busca], há os que idealizam em demasia, e há os que precisam efetivamente viver o amor, pois a ele se dispõem e se entregam.

Portanto, além deste circo todo que é a vida, há que se saber em que patamar reside o amor na cadeia alimentar existencial de cada um, treinando o faro para perceber os similares e, principalmente, fugir dos díspares.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

O olhar que beija




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Fotografia: Shlomi Nissim





O poder da mídia é inquestionável e ao mesmo tempo assustador. Através de mensagens diretas ou subliminares, recebemos em média trezentas sugestões diárias de como tornar nossa vida melhor e sermos mais felizes. Quase todas indicando dois endereços bem pontuais: consumo e beleza física. Quanto maior a capacidade de consumo e proximidade da perfeição estética, maior também será o grau de satisfação pessoal e a admiração dos outros. Certo ou errado? A pretensão aqui não é entrar no mérito dessa discussão, apenas comentar as implicações desses comportamentos nas relações afetivas.

Uma mentira repetida mil vezes pode acabar parecendo verdade. Depois de bombardear o público durante um mês com o comercial do pop-star vendendo determinado produto ou estilo de vida, a mensagem acaba sendo assimilada e o desejo de compra passa a ser uma consequência lógica. É mais ou menos assim que somos induzidos à mudança de hábitos ou comportamentos.

Quase tudo nos é oferecido de maneira instantânea, com promessa de satisfação imediata. Cada vez mais as pessoas utilizam seu tempo livre para navegar em sítios de compras, de sexo explicito, salas de bate-papo, interagindo apenas virtualmente. Um olho no monitor e outro no teclado, buscando o imediatismo, o já, o agora.

Esta instantaneidade invadiu também as relações afetivas, uma vez que a escolha do sujeito da cobiça amorosa tem se restringido a um simples passar de olhos, um relance, com vista apenas, na maioria das vezes, em patrimônio, medidas de busto, coxa e quadril.

Um outro tipo de olhar foi esquecido. Aquele olhar que não tem pressa, porque sabe que vai precisar de tempo para atravessar a retina, sondar a alma, devassar os segredos, deixar seu recado e buscar o brilho ou a escuridão do retorno. Enquanto a pupila de um vai pedindo licença, a do outro vai dilatando, e vão se deixando conhecer, abrindo passagem, esquentando, querendo, gostando, encaixando. E ‘clac’.

Sustentar o olhar do outro não é para qualquer um, ou quaisquer dois. É preciso parceria, a verdade de um olhar encontrando eco na verdade do outro, e novamente refletindo para dentro de cada um.

Notem como hoje se tornou mais fácil beijar, tirar a roupa, se deixar tocar, ficar, comprar, viajar, fazer cirurgia plástica do que sustentar por mais de dez segundos o olhar de alguém. Ao que tudo indica, nesta nova ordem da instantaneidade e felicidade comprada, pode-se adquirir, mostrar e tocar quase tudo, menos o olhar.

Qual seria, então, a parte mais sedutora e, se tivesse preço, mais cara do ser humano hoje em dia? Sem dúvida que seriam os olhos. Aquele olhar de quem se entrega, conseguindo assim falar melhor que a boca, escutar além das palavras, sentir acima e abaixo da pele e enxergar bem mais que as aparências. Quando esse brilho atinge o outro, é chegada a hora de fechar as pálpebras e deixar que os lábios se busquem, para de outra forma enxergar o que os olhos já haviam visto.

Beijar sem antes olhar fundo é como comprar no escuro. É um beijo roubado. Beijar com a luz apagada, então, é um assalto. Beijar de olhos fechados só tem sentido se antes houver o espelhamento das retinas. Encarar antes e depois de um beijo é um prazer tão grande, que talvez palavras não consigam expressar, mas chega a ser melhor que o próprio beijo. Enfim, acertar o foco é uma questão de tempo, direcionamento do olhar e mais do que tudo, vontade de enxergar e se ver ao mesmo tempo.

Escrito em parceria com Ildo Meyer


Poderás gostar também:
 Resignificando o beijo
No meu ou no seu?

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domingo, 25 de julho de 2010

Viver: consuma sem moderação

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Tempo cronológico,
Tempo sentido,
Tempo negado e consentido.
Há tempo ao tempo.
Um tempo para o tempo.
Tempo para outros tempos.
Pouco importa por quanto tempo
É tempo de apropriar-se do único,
irrepetível,
inegável,
indelével
tempo-agora
- uma espécie de ágora minha
para o exercício das livres ideias.
[MJ - nov/2008]


Hoje, neste exato julho de 2010, não estou para a poesia, mas sigo o exercicío das livres ideias. Esta coisa do tempo, das rimas, das fases, épocas, momentos de vida, experiências vividas, observações e constatações são fruto do caminho sem volta daquele estranho hábito de pensar. E bendito seja o pensar. [Pensar: ponderar várias hipóteses sobre o mesmo tema ou vários temas a partir de uma mesma hipótese. Ainda, encadear involuntário de ideias, conexas, desconexas etc.] É bem verdade que pensar atrapalha, e muito, em muitas circunstâncias. É sabido. Assim como é verdade também que ter aprendido a pensar é suporte de coragem às escolhas, embora sem garantia de acerto. Sabido, também. Enfim. Foi pensando, a partir de verdades remotas, que fiz escolhas passadas. E é pensando, hoje, que sigo escolhendo. Essa obviedade tem um sentido, uma mensagem. Quero dizer da graça da releitura da poesia de outro momento/tempo meu, de ter o prazer de me reportar àquele passado e a outros mais remotos ainda e ver que, apesar de tantas mudanças, tantas novas verdades, o melhor de mim não se perdeu. E que essa tal de madura idade, quando vai chegando, é boa demais quando conseguimos manter a graça da tenra idade, com todos aqueles adendos de segurança que só a madura idade dá. Então, talvez seja agora, e não na juventude, a melhor hora de brincar de viver, apesar dos involuntários pensares. E já que não tenho certeza disso, quando eu ficar bem velhinha prometo fazer a releitura para, pretenciosamente eugênica, a partir da visão 'a vida como ela é', deixar alguma contribuição para aqueles que desejem conhecer um pouco das belezas da vida - e suas mazelas também.

Por hora a mensagem é:
Viver: consuma sem moderação!

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domingo, 18 de julho de 2010

Cartas - Felicidade: questão de ponto de vista



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Artista Plástico: Nelson Wilbert - Porto Alegre, RS, Brasil




Querida amiga:

Quero agradecer o texto compartilhado. Embora já o conhecesse, é sempre bom reler. E nesse caso foi involuntário um pensar, ou pensares, como preferir. Convido-te, então, para pensarmos juntas, pois sei que dás asas à imaginação quando provocada. Entretanto, devido à demora nesta resposta, talvez não lembres sobre o que tratava. Vou refrescar-te a memória com o trecho que interessou, então:

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
(...)
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais! A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
Carlos Drumond de Andrade

Convido-te a fazer a leitura a partir unicamente da hipótese de um amor frustrado, em que aquele que arriscou mais alto vamos chamar de bravo - porque em geral é assim que se percebe -, e o sujeito destinatário desta bravura chamaremos de fraco - porque assim o destemido e a sociedade o consideram -, uma vez que este não conseguiu se libertar das amarras da vida para viver uma história plena ao lado do bravo. Essa interpretação não é minha caríssima, é do mundo. Observe. Mas vamos à provocação, e antes mesmo de adentrar no que a mim interessa, adianto uma pergunta: Será uma espécie de onipotência julgar-se bravo, destemido, em contraposição à suposta fraqueza do outro? Vamos elucubrar juntas.

Primeira impressão: No ápice da ruptura da relação, em estado de dor aguda, tem-se dois sujeitos em condições antagônicas: o bravo e o fraco. Aquele que tudo arrisca e o outro que a tudo teme, recua.
Parênteses. Primeiras impressões, dizem, são as que ficam. Acredito que não. Direi o porquê. Fecha parênteses.


Impressiona observar que quando transcendida a fase da torpeza da dor, insights de lucidez são inevitáveis e recorrentes. Sentenças a perguntas que ficaram sem respostas eclodem involuntárias, efervescentes. Nasce aqui a segunda impressão, e para acompanhares meu raciocínio, faço-te duas perguntas:

Não te parece muito mais sinônimo de fraqueza aceitar o convite de se jogar no mundo do sentir através do modelo romântico? Qual seja, o de dizer sim à proposta ao risco de perder-se no outro, confundir-se em um só, apontando para uma espécie de perda de identidade, como rezam as cartilhas dos poetas, novelas e filmes, conforme sinaliza o poema?

E por outro lado, pergunto ainda, não te sugere coerência, ou um ato de bravura até, abrir mão de um verdadeiro amor em nome, por exemplo, de pressão familiar ou social que, impiedosos e perversos na forma, subjugam o ente  enamorado a ponto de fazê-lo(a) acreditar - e acreditam, pasme! - que não poderá gozar do passado e do presente, impondo-lhe uma única escolha?

Caríssima, nessas hipóteses, fico imaginando que, no primeiro caso, não haverá bravura quando aquele que é tido como o destemido acomete-se do mimetismo das relações; qual seja, o perder-se no outro, pretender uma fusão de dois em um só.
Assim como imagino ainda, no segundo caso, não haverá fraqueza quando, egocentrado, aquele que é tido como fraco pelos padrões de valores sociais, evitar os efeitos do risco, com base no mais primário dos instintos: o da autopreservação.

E veja que interessante. Em nível de sentir a dois, dicotômicas e antagônicas, ao fim e ao cabo, bravura e fraqueza transmutam-se num só, um só signo: frustração - quer por perder-se de si mesmo, no outro, seja pelo inacabado, inconcluído por inconclusivo. Oriundo do privar-se e ser privado, por circunstâncias externas à vontade [consciente] daqueles dois.
Desse ponto de vista então, talvez seja essa segunda impressão - a frustração -,  a que fica.

Mas não te assustes cara mia, pois seria terrível se se esgotassem aqui as conclusões. Vão além. É que frustrar ou frustrar-se tem seus efeitos mediatos, melhor dizendo, a longo prazo: bem verdade que poderá resultar disso apenas dejetos de sentimentos miseráveis - dores, autopiedade, vitimização. Ou, no que  seria sano apostar, redundará crescimento, amadurecimento emocional, fertilizados na dor.

Por isso, minha fiel interlocutora, neste ponto, é de se concordar plenamente com o poeta, uma vez que de fato todos têm escolha: fenecer nas inquietudes angustiantes do sentir-se frustrado, ou migrar para o patamar da compreensão. Enxergar que existem outras verdades para além da individual, sem julgar com os olhos viciados em clichês e estereótipos de relações frustradas. O resultado será transcender, elevar, aprender e apreender as razões e motivos que levaram não viver aquele amor. O prêmio final será resgatar a capacidade de sonhar novos sonhos a serem sonhados a partir da consciência de que felicidade se encontra no 'em si', in, não out, independentemente do agir do futuro depositário de seus sentimentos.

Veja bem. O experimentado poeta nos diz do desperdício da vida: o amor que não damos, as forças que não usamos, a prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.  É verdade? Arrisco responder um não. Seria apenas ‘uma’ verdade, pois, segundo a leitura, pergunto: será que felicidade não pode estar, também, justamente no recuo, no não-arriscar?  E a resposta poderá ser 'sim' se aquele que teme ou recua apropriar-se da verdade de que felicidade estará onde resida sua zona de conforto, a despeito de ser tida como zona morta por aqueles que tudo arriscam.

Então, felicidade é apenas uma questão de ponto de vista, não te parece? Ou seja, cara amica, nem tudo é o que parece ser. E o risco, me parece, reside unicamente na conduta onipotente de julgar as razões alheias, tendo como fonte subsídios rasos, resultando conclusões discrepantes dos reais motivos do outro.

Me parece, feliz tende a ser quem aprendeu ponderar sobre o imponderável, para além daquilo que precise acreditar - como meio de justificativa de sua própria cegueira.

Bacio, cara mia.


domingo, 11 de julho de 2010

Carta a um louco

Agosto de 2008.

Querido Louco:

A [minha] sanidade por aqui tem estado em níveis aparentemente próximos do insuportável, pois que transitar entre os insanos que vivem a esteridade da normose, de certo modo, atordoa minha mente.

São momentos que gravito, pairo sobre seu trânsito regular, observando a pequenez do sentido de seus movimentos, gestos e valores que chego a ter a sensação de que me falta o oxigênio necessário para retomar à rotina compartilhada.

Não penses que, a partir desse olhar lançado sobre aqueles, feneço em mim mesma.

Pelo contrário, são nutrientes para minh'alma, que, líquida, permeia por aquelas existências vis, ocas, insossas, resultando maior convicção de que estar plena de vida, de significação, é fruto do saber-se constantemente entorpecida pela existência do sentir - que traz em si a [minha] verdadeira acepção de felicidade.




sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morte de Saramago = mundo ainda mais burro e ainda mais cego (Fernando Meirelles)

Perfeito o comentário de Fernando Meirelles hoje, diretor do filme baseado na obra Ensaio sobre a Cegueira, sobre a morte de José Saramago.

"A lucidez naquele grau é um privilégio de poucos, não consigo escapar do clichê, mas definitivamente o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje."

Pois é. Morreu o corpo de Saramago, e com ele a chance de novas publicações de ideias que mereceríamos saber. Só resta, então, ler e reler os pensamentos pensados num pensar exageradamente pensante daquele José. Seguem aí alguns trechos:


"Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais."

"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma."

"Nós estamos a assistir ao que chamaria de morte do cidadão e, no seu lugar, o que temos, e cada vez mais, é o cliente. Agora já ninguém te pergunta o que pensas, agora perguntam-te que marca de carro, de roupa, de gravata tens, quanto ganhas…"

"As misérias do mundo estão aí, e só há dois modos de reagir diante delas: ou entender que não se tem a culpa e, portanto, encolher os ombros e dizer que não está nas suas mãos remediá-lo — e isto é certo —, ou, melhor, assumir que, ainda quando não está nas nossas mãos resolvê-lo, devemos comportar-nos como se assim fosse."

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Um dia paradoxal: da morte à balada

Hoje saí mais cedo do trabalho, pois tinha agendado fazer alguns exames médicos de rotina.

Sempre que fazemos exames laboratoriais, ou consulta médica, as pessoas próximas ou o médico que nos atenda vão logo perguntando se tem algo errado. Não, nada errado, preventivo mesmo! - é a resposta.

Pois é, preventivos, rotina. Prevenir, adiar, minimizar efeitos. A razão é uma só, postergar a morte. Ai! Pesado isso? É, ninguém tem apreço pelo tema – ao menos na contemporaneidade não.

A questão finitude é sempre posta de lado, deixada pra lá, adiado o enfrentamento para mais tarde, quando realmente bater à porta de cada um.

Não, não pretendo dizer do lado sombrio da finitude do corpo para o ser humano contemporâneo, sequer discorrer sobre seu significado para os povos antigos para melhor compreender as transformações de sua representação. Nem mesmo dizer das múltiplas formas de morte em vida. A intenção é outra.

É que hoje, por conta das repetidas vezes que ouvi a mesma fala - algo errado? -, acabei lembrando sim da talzinha, e com ela lembrei de uma palestra sobre o tema que assisti dia destes no Café Filosófico (programa altamente recomendado, ao invés do Show da Vida nos domingos à noite – canal TV Cultura-SP, 23h).

Enfim, o evento exames médicos de hoje, e que gerou as perguntas repetidas, me fez lembrar um registro da palestra, quando foi mencionado que a morte faz questionar o sentido da vida, desafia pensar a nossa condição. E, aqui o mote da lembrança, que quando fazemos isso, a morte se revelaria como um instante de vida.

Pois é, sem maiores filosofadas sobre o tema, enquanto me dirigia ao laboratório acabei pensando exatamente nisto, do quanto pode ser verdadeira a sentença de que nos instantes em que somos convocados a pensar a finitude é que avaliamos mais profundamente nossa condição, em vida. E que, sim, apesar das inquietudes, angústias e dúvidas que o fim possa causar, é somente neste exato instante que ela, a morte, se reveste de vida, pois invoca repensar nossa existência.
Por mais paradoxal que pareça, é o lado bom de se pensar ‘na desconhecida’, ainda que a única certeza desta vida.

Mas, noves fora, em seguida outro paradoxo do dia.
Chego em casa, vou ler meus e-mails e vejo uma sequencia de trocas entre um grupelho de mulheres, organizando uma balada para o final de semana. Para minha surpresa, fui incluída.
A surpresa não está no convite ou evento propriamente, embora não seja baladeira, mas sim na mescla de mulheres do grupo e, principalmente, no conteúdo do último e-mail recebido, que foi o primeiro que li. Dizia exatamente assim:
Olha.. ainda não sei se vou pra Cachoeira ou não, aviso vcs amanhã.. mas se eu ficaaaaar NAO QUERO SABER DE KO! E voto em uma noite mais pegada do que a Dublin. Estou pela maldade! hahaha

Bem, tive que parar para fazer algumas traduções até chegar à proposta da mocinha. Achei ótimo o exercício. Não sabia o que era 'KO', pensei, pensei e, sem me socorrer dos universitários, traduzi: caô. Bingo! Também não sabem o que significa? Gíria importada, carioca: mentira, golpezinho, ‘dar pra trás’, mentira branca. Enfim, seguindo a tradução ‘uma noite mais pegada’: lugar onde haja maiores possibilidades de encontrar pessoas que se aproximem de mim. E finalmente, ‘Estou pela maldade’: quero sair para ficar com alguém.

Pois então. Lidos e traduzidos os e-mails do grupo, e rindo de outras pérolas impublicáveis que achei por lá, fiquei pensando na diversidade do grupo e no quanto sempre poderá ser rica a interação com diversas tribos quando vemos apenas o ouro puro que se pode extrair de quaisquer situações. Bem, apesar disso, fato é que acabei linkando as falas da mocinha com o que eu havia pensado enquanto me dirigia ao laboratório de exames, e tive nisto um dos exemplos dos incontáveis mecanismos que as pessoas empregam para sentirem-se vivas, apesar da forma.

É instintivo proteger-se da morte. E para isso, vê-se que somos incansáveis nas múltiplas formas do sentir-se vivo.  Muitos não estão na idade de se apropriarem minimamente do significado finitude - e não que idade cronológica seja prerrogativa para isso. Outros, com mais milhas percorridas, com mais trecho, já tiveram algum contato com ela. Embora as diferenças, a similaridade estaria no fato de que não se tem o hábito do exercício de valorizar a vida, vai-se vivendo simplesmente, sem lembrar de que é com base em escolhas, boas ou ruins, certas ou erradas, conscientes ou não, que estabelecemos nossa condição - de vida.

Por isso, talvez não seja menos verdade que pensar nela, a morte, se revele um belo exercício de apropriação, valorização e recondução da vida, a partir de novas ou velhas escolhas. Sei que há controvérsias, mas é uma forma, também, de sertir-se vivo.

Ah, quanto ao grupelho de mulheres, vi que nem todas estavam pela 'maldade' e elegeram o lugar com a 'pegada' da diversão, pura e simplemente.