segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Agradecer










É preciso agradecer por todas as minhas capacidades! Obrigada!
Bem-vindo novo e transformador 2013.
Alguns começos daqui.






domingo, 30 de dezembro de 2012

Encerrando ciclos




Daehyun  Kim




Despedida de um ano que foi marco. Sempre estou em mim, mas estive bem mais neste ano pela perda de meu pai. A tristeza, que avassala no ápice da dor, foi lentamente transformada em gratidão. Transformada em bem-sentir. Não é fruto de dever cumprido, e sim de estar filha e pai como conseguimos ser. O rosto vai se desfazendo na concretude que a materialidade de estar vivo carrega. Pulso que não pulsa. E então construo um novo rosto. Uma nova forma. Feita de lembranças. De cada linha que acarinhei. Da mão que segurou forte quando precisei. Daquela que dei, firme, quando precisou. Se pudesse voltar o tempo, não voltaria. Sigo daqui, reconhecendo suas tantas influências em mim. Dois mil e doze fecha com o encerramento deste ciclo importante. E mais outros. Fim.







sábado, 29 de dezembro de 2012

Tanto melhor, assim



Joan Miró



Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

                    Alberto Caeiro



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Mulher Madura - Affonso Romano Sant'Anna






Fotografia: Brad Kunkle




O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

                                                                                                                                      Affonso Romano de Sant'Anna






sábado, 15 de dezembro de 2012

Dá pra não complicar?









Porque há vontades que não deixam espaço para complexidades vãs. 
A vida convoca à simplicidade.






quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

É o que a casa oferece









Não que tenha medo de fantasmas. Tenho é blindagem contra medo alheio de seus ectoplasmas não exorcizados. Para os meus, reza e água benta - fique em paz, mantendo distância regular, por favor. 
Não que tenha medo de luta. Tenho pânico é de guerra. Das tantas que já comprei e não eram minhas. Serve oferta de batalha? Só se for conjunta. Eu e eu mesma, e quem mais quiser. Comunhão de esforços para identificar desejos bons e fórmulas para realizar os que se queira seja mantido - bonito isto, caso não trouxesse alguma carga de idealização. E não nego, dela também se constroem sonhos.
Não que tenha pressa. Tenho é urgências de ganhar a comida que mantém pulsante o sopro da crença de que sempre vale a pena. Senão, bem verdade que até que não morro de fome. Uma parte sobrevive, e bem, pois esta depende apenas do que eu a ofereça. Morre aquela que não se alimenta da comida que tem de ser entregue pelo outro. Uma morte sem direito à dedicado luto, pois já morri de véspera tantas vezes que hoje poucas mortes doem aqui. 
Não que me falte paciência. Tenho é baixa tolerância para elucubração. Faça-se, então.
E haja coragem.








quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

12.12.2012












Deve ser o período do ano.  Semana passada, mirando a madrugada silenciosa da janela, um risco de fogo cruzou o céu. Fazia anos não via uma estrela cadente. E lembrei dos tantos céus em que me perdi nas noites escuras lá do interior. As luzes dos grandes centros roubam a atenção daquele que parecia um pano escuro imenso, com furinhos que deixavam passar a luz de uma outra dimensão - era o olhar da criança para as estrelas. Lembrei das tantas luas, e que era vício acompanhar suas fases no correr das estações do ano. E quantas vezes o telhado foi lugar escolhido para antecipar sua chegada, alimentando a ilusão de que dali seria possível tocá-la - sem noção que um passo em falso custaria o adeus ao mirante escondido. Deve mesmo ser alguma espécie de pacto que o céu e a lua fazem com certas pessoas. Decretam a sujeição em forma de fascínio e, sem direito dizer palavra, prendem pra sempre. Tão forte é a magia que faz perder a noção dos perigos, como outro dia em que, em plena  madrugada, paralisei às margens do Guaíba diante do que mais parecia um gomo gigante de bergamota. Mais alaranjada que  a própria laranja, refletia seu traço na extensão do rio - que como eu não teve escolha, sucumbiu também hipnotizado. Sem movimento. Um mundo de silêncios. Eu, o rio e sua majestade. De certo que a lua faz cometer loucuras porque de alguma forma garante proteção a quem se arrisca em seu nome. Hoje vi o calendário e marcava 12.12.2012. Olhei pro céu e não tinha risco de fogo, nem a bola magnética, mas lembrei dos pedidos juvenis às estrelas cadentes e à lua. Pedi, então, que meu olhar contemplativo de criança não me abandone jamais. 






terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Alguma compreensão









Gregory Colbert




Ser terra
E cantar livremente
O que é finitude
E o que perdura.
Unir numa só fonte
O que souber ser vale
Sendo altura.
     Hilda Hilst


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Contestando flertes







Fotografia: Elena Kalis



Amar nos coloca numa posição de grande vulnerabilidade e fragilidade e por isso o amor é tão assustador. Se sentir desprotegido é uma sensação de morte. Amar é flertar com a morte, pois se tudo acabar é isso que vamos sentir, como se tivéssemos morrido. O grande amor é assustador e exige enorme coragem.*





Há muita confusão entre amor e paixão. Efêmera, a paixão capricha nas inseguranças e angústias que o tempo, para quem teve a 'sorte' de se permitir, dá um jeito de ensinar que se trata de uma das mais paradoxais sensações. Das maravilhas aos horrores - de se desconhecer por não mais morar em si - residência fixa apenas no outro. Já o amor, construído, sem pressa, a partir da observação detida das identidades, e sem os véus da idealização romântica e cega que quer um espelho, somente este, à mim, parece capaz de permanecer no tempo. Houve o tempo necessário para identificar aquele(a) que ensandece no que seja, e ainda assim acalma a alma - na doce loucura que é a cumplicidade singular de quem verdadeiramente ama. Quem flerta com a morte é a paixão cega [redundância na cegueira]. Nesta fase da vida, fico com a ideia de que amar é flerte com a transformação.





* Da querida amiga Andréa Beheregaray. Recomendo a íntegra.
http://andreatpm.blogspot.com.br/2011/12/cronica-virtual-texto.html





terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Distância




Kris Kuksi, ''Reticent Affair"



Olho no olho, no frio,
deixa-nos também começar assim:
juntos deixa-nos respirar o véu
que nos esconde um do outro,
quando a noite se dispõe a medir
o que ainda falta chegar
de cada forma que ela toma
para cada forma
que ela a nós dois emprestou.
                           Paul Celan













segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Estágios







O Jardim do Amor. Miniatura de Roman de la Rose. Flandres, final do sec. XV





"O mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas, que entram nele e saem. Muitos papéis cada um tem no seu tempo; sete atos, sete idades. Na primeira, o grito e a baba nos braços da mãe. Depois, o rosto matinal de serpente que se arrasta para escola a contragosto. O amante vem depois, fornalha acesa, celebrando as sobrancelhas da mulher desejada. Em seguida, o soldado, cheio de juras feita sem propósito, a buscar a glória vã na boca dos canhões. Segue-se o juiz, de olhar severo e estômago cheio, impondo as sentenças e as certezas que seu papel exige. Na sexta idade o mundo é amplo demais para as pernas mirradas e o falsete da voz infantil que voltou. A última cena, remate desta trágica história, é o esquecimento, a vista falha, os dentes, o gosto, tudo, nada."  William Shakespeare









quarta-feira, 21 de novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

De Augustes e Camilles




A Porta do Inferno - Auguste  Rodin
12 de  novembro de 2012, 172º aniversário de Rodin




Mergulharam tão profundamente na (in)sanidade do sentir,
que da proposta de reinventar o paraíso
construíram o inferno - salpicado de beijos e de sombras.








sábado, 10 de novembro de 2012

Mulheres que [me] cansam









Fotografia: Jordam Matter




Tá morrendo de quê, oh guria, de amor? Amor não mata. O que mata e consome é esta incapacidade de aceitar que tem dedo pobre pra escolha. E nem adiantou desenhar, pois via no outro -  qualquer outro, um outro qualquer - a razão de existir. 







sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Das formas










O melhor dos sonhos está em construí-los de uma forma tal 
que os ganhos da caminhada sejam, também,
a materialização do sonhado.






quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Pedintes





Arte: Ben Heine





Socorro
pede a vista embaralhada
por livros, processos e monitores
o cérebro
desejoso do ócio criativo
e músculos
atrofiados por cadeiras,
classes escolares, camas
Odeiam meu estado
Com razão
porque só_corro.







sábado, 20 de outubro de 2012

Sendo




Auguste Rodin - 1885



Se pudesse
me derramaria na tela/papel todos os dias
num diálogo entre nós duas
eu e aquela que sou
Sou, também, enquanto me vejo
depois da junção dos signos.










segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tempos difíceis










Arte: Tommy Ingberg




Em tempos de eleições e de julgamento do caso chamado 'mensalão', mais cansativa se torna convivência com o senso comum. A ausência de crítica, ter nas notícias editadas e manipuladas fonte de informação, a intolerância generalizada fruto do desconhecimento e do comportamento cada vez mais individualista, não poderia mesmo ter outro resultado que aquele que se tem visto. Um aglomerado de ventríloquos e seu arcabouço de sínteses, fundamentadas numa novela chamada  Avenida Brasil. 










quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Propaganda eleitoral na mídia televisiva












Desigualdade de condições. Assisti pela primeira vez à propaganda eleitoral aqui de Porto Alegre relativa à eleição de 2012. Temos um 'Tiririca' e outros que tais concorrendo. Me ocorreu uma questão. 

A veiculação em TV e rádio da propaganda política para os cargos de vereadores, deputados e senadores se presta muito mais (ou apenas) ao voto de protesto ou voto a um rosto público do que à escolha de uma proposta propriamente. 

São segundos de informação, limitados a uma imagem e, quando muito, meia dúzia de palavras que sinalizam uma intenção de atuação, incapazes de revelar a proposta do candidato. 

No modelo que temos, a propaganda se presta unicamente para eleger figuras caricatas ou figuras públicas das mídias televisivas e radiofônicas (apresentadores de programas de TV e rádio, artistas em geral). Injusto, pra não dizer tacanho. 

Nem todas as localidades disponibilizam a mídia televisiva para seus candidatos.Então, por que nos grandes centros é diferente? 

A colheita tem sido a eleição de figuras públicas que se valem da máquina midiática para ingressar em uma área para qual não são vocacionados, mas que, antes, atende um interesse individual. [Ou, em alguns casos, há também interesses dos donos das mídias por trás?]

Mais que tardia a hora de rever a legislação a este respeito.






quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Fragmento















Sobre aquele escrito, quando o terminava, decidi que não tinha função dividir. Havia tanto nas entrelinhas e muito mais para além delas que, por surdo e cego, desisti.









sábado, 8 de setembro de 2012

Das obviedades








Fotografia: André Brito




Fazia-se notar pela presença diária. Cercava. Saltitava na volta com comentários articulados e inteligentes.  Ele notava, mas não a_notava em seu coração. 
[Como dito por um amigo certa vez, o encantamento ocorre nos primeiros cinco minutos. Se não, é qualquer outra coisa menos a concretização do desejo de quem desesperadamente tenta convencer. 

Até existem os que se rendam à insistência, conformados por atributos que creem possam reverter em paixão. Tenho cá comigo, porém, que contra a mornidão dos sentidos não há remédio.]  






quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Dúvidas














O coração mais bonito é cheio de dúvidas. Encontra nelas razões para não se acomodar na inércia ou nos dilemas. Pouco importa que seja de recuo, importa o movimento. Acho.











quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Às vezes, nem desenhando




Desenho: Brock Davis, in Cultura Inquieta FB




Tudo bem que há de se respeitar as dificuldades na área da comunicação ao interpretar falas, leituras e comportamentos. Mas daí entender que a simples presença, agir carinhoso e sorrisos possam ser signo de 'te quiero', só resta ao intérprete plugar os eletro-eletrônicos na fuça de um porco.











domingo, 26 de agosto de 2012

Aniversário









Lucidez. Quando desejo muita saúde, é também, e especialmente, dela que estou dizendo. 










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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Ensimesmar-se






Peter Harskamp







E talvez porque já não tivesse pressa
Nem ilusões desenhadas em expectativas aturdidas
Os sonhos ganharam contornos de realidade
E suas realizações
Ao alcance da mão.














sábado, 18 de agosto de 2012

Da urgência








Henry Matisse







E quando se chega à determinada fase da existência, em geral quando percebemos mais claramente o que seja finitude, é quase involuntário apropriar-se da compreensão de que o futuro não passa deste presente. Há urgência de viver, olhar e sentir a vida. Uma pressa que não diz com as angústias juvenis.
            M.J.



terça-feira, 31 de julho de 2012

Sobre o amor - por Lenya Terra




Fotografia: Elena Kalis




Quem já levantou os véus do amor, reconhece.
E quem conheceu, busca conhecer além.
                                                                  MJ



Desvenda-me  


           [Lenya Terra*]


Não venha me falar de razão, 
Não me cobre lógica, 
Não me peça coerência, 
Eu sou pura emoção. 
Tenho razões e motivações próprias, 
Sou movido por paixão, 
Essa é minha religião e minha ciência. 
Não meça meus sentimentos, 
Nem tente compará-los a nada, 
Deles sei eu, 
Eu e meus fantasmas, 
Eu e meus medos, 
Eu e minha alma. 
Sua incerteza me fere, 
Mas não me mata. 
Suas dúvidas me açoitam, 
Mas não deixam cicatrizes. 
Não me fale de nuvens, 
Eu sou Sol e Lua, 
Não conte as poças, 
Eu sou mar, 
Profundo, intenso, passional. 
Não exija prazos e datas, 
Eu sou eterno e atemporal. 
Não imponha condições, 
Eu sou absolutamente incondicional. 
Não espere explicações, 
Não as tenho, apenas aconteço, 
Sem hora, local ou ordem. 
Vivo em cada molécula, 
Sou o todo e sou uno, 
Você não me vê, 
Mas me sente. 
Estou tanto na sua solidão, 
Quanto no Teu sorriso. 
Vive-se por mim, 
Morre-se por mim, 
Sobrevive-se sem mim. 
Eu sou começo e fim, 
E todo o meio. 
Sou seu objetivo, 
Sua razão que a razão 
Ignora e desconhece. 
Tenho milhões de definições, 
Todas certas, 
Todas imperfeitas, 
Todas lógicas apenas 
Em motivações pessoais, 
Todas corretas, 
Todas erradas. 
Sou tudo, 
Sem mim, tudo é nada. 
Sou amanhecer, 
Sou Fênix, 
Renasço das cinzas, 
Sei quando tenho que morrer, 
Sei que sempre irei renascer. 
Mudo a protagonista, 
Nunca a história. 
Mudo de cenário, 
Mas não de roteiro. 
Sou música, 
Ecôo, reverbero, sacudo. 
Sou fogo, 
Queimo, destruo, incinero. 
Sou água, 
Afogo, inundo, invado. 
Sou tempo, 
Sem medidas, sem marcações. 
Sou clima, 
Proporcional a minha fase. 
Sou vento, 
Arrasto, balanço, carrego. 
Sou furacão, 
Destruo, devasto, arraso. 
Mas também sou cimento, sou tijolo, 
Construo, recomeço... 
Sou cada estação, 
No seu apogeu e glória. 
Sou seu problema 
E sua solução. 
Sou seu veneno 
E seu antídoto 
Sou sua memória 
E seu esquecimento. 
Eu sou seu reino, seu altar 
E seu trono. 
Sou sua prisão, 
Sou seu abandono e 
Sou sua liberdade. 
Sua luz, 
Sua escuridão 
E seu desejo de ambas, 
Velo seu sono... 
Poderia continuar me descrevendo 
Mas já te dei uma idéia do que sou. 
Muito prazer, tenho vários nomes, 
Mas aqui, na sua terra, 
Chamam-me de AMOR.



*Lenya Terra era o pseudônimo de Helena Barbosa Mendonça, poetisa paranaense.









domingo, 15 de julho de 2012

Barulhos








Fotografia: Gregory Colbert





Não sei se é coisa da idade ou coisa pra otorrino da mente.
Há barulhos que já não suporto mais. 





domingo, 8 de julho de 2012

Generosidades para o sexo casual








Fotografia: JeanLoup Sieff





Falo aqui aos héteros. Mas não apenas. Generosidade e gentileza são pressupostos para quaisquer relações a dois. Fato sem controvérsia. Porém quando o assunto é parceiro casual, coisa de macho e de fêmea, buscando-se apenas para o prazer da hora,  a condição muda um pouco. Ou bem mais que um pouco, muda significativamente. Homens desavisados não prestam muita atenção. Sequer a própria mulher - e depois ainda reclamam. É que nesse negócio de sexo casual, quem escolhe é a mulher. Pois ela que baixa a guarda, abre espaço - abre as pernas, a boca, abre tudo. Ou fecha. E não tem conversa. Civilizadamente, não tem força física que mande neste terreno que apenas a vontade da mulher - que naquele instante deseja. Então  que o homem, até levar a mulher pra cama, e mesmo depois de sair para fora dela, dê seu máximo em gentileza e elegância. Máximo mesmo - como demonstração da sabedoria mundana de que (quase)toda mulher, num clic  apenas, atinge dos 20 aos 80 anos. É verdade que ninguém se pretende um objeto aos olhos e sentidos do outro. Mas também é verdade que, entre um amor e outro, e sem generalizações que excluam outras formas de conduta, a maioria não estará só. Logo, será hipocrisia pensar diferente. E por tudo isso, a nobreza de gestos do macho é o mínimo para fazer valer o desejo daquela fêmea. Saudável, moderna e equilibradamente bom para os dois. 







Da alma dos juízes








Deusa Themis. Palácio da Justiça do Rio Grande do SuL. BR.
Escultura em bronze do arquiteto Carlos Maximiliano Fayet -  Fotografia: Flávio Tissot 


Juiz, para ser investido na carreira da magistratura, haveria de ter alma de poeta, de artista. Se não, que em algum momento tivesse conhecido a alma do povo.
[A deusa Themis sem venda, é o mesmo que dispensar o uso das sensibilidades para enxergar a realidade cidadã.]












sábado, 30 de junho de 2012

Sentença de vida












... à ti, comedimento só nas horas das máscaras protocolares. 
De resto, te condeno à nudez das emoções.







Fotografia: Sascha Huttenhain

sábado, 16 de junho de 2012

Dos diálogos: estranhos hábitos virtuais









Fotografia: Bill Brandt




... também seria alguma espécie de pequenez, de falta, de ausência de substrato de si mesmo, que faz incorrer no estranho  hábito de 'marcar' em redes sociais os passos dados lá fora. 

É o prato de comida fotografado. São os nomes do restaurante, do shopping,  da cafeteria, do pub, do salão de beleza, do parque etc, 'bem frequentados'. Sem quê, nem porque. Por detrás, imploram a leitura de inscrições de felicidade permanente, de ajustado socialmente, de negação aos símbolos da pobreza. Perfeição.

Pela culatra/cloaca justificam uma existência plagiada, fakerizada, de um oco enquanto gente, sem fim. Não fosse isso, haveria marcações em lugares tidos como não tão 'nobres' assim. 







terça-feira, 5 de junho de 2012

Mágica forma




Dos céus de Porto Alegre, RS, BR. - junho 2012




Se é para acreditar em magia, que seja dos céus, sois, cores. 
Mágica forma. Todos os dias um novo milagre - idêntico à vida.   MJ







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terça-feira, 29 de maio de 2012

Esquiva








Fotografia: Bill Brandt








    Introduzo-me

O blog persegue seu autor. O autor se esquiva do blog.
"É preciso alugar ou ocupar algum espaço como grileiro, cultivar uma safra pequena e comê-la em seguida. É preciso viver sozinho e depender de si mesmo, sempre com a mala pronta, prestes a recomeçar, sem muitos vínculos..."
Diante do blog, o autor está só, cultivando sua parcela de palavras, consumindo-a. Depende de si, ao se surpreender só, desvinculado, desenvolvido, pronto a se refazer.    A
lfredo Attié






Gosto da minha solidão acompanhada de outras.  MJ   









quarta-feira, 23 de maio de 2012

Do medo





Fotografia: JeanLoup Sieff







Sempre nos surpreendemos com o objeto do medo,
pois nunca é o que elucubramos que fosse. 
                                                                                 MJ










                                     

domingo, 13 de maio de 2012

E por que haverias de querer...(Hilda Hislt)









Fotografia: Gottfired Helnwein




E por que haverias de querer... (Hilda Hilst)

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras liquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.




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terça-feira, 1 de maio de 2012

Dos outros: Cântico Negro - José Régio





Arte: Marcel Caram




...porque há nos olhos meus, ironias e cansaços.


Cântico Negro - José Régio*



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide!
Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!




Recitado por Paulo Gracindo:
http://www.youtube.com/watch?v=LkYkp3ZsmJQ&feature=youtu.be



José Régio
Pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos. http://www.releituras.com/jregio_cantico.asp




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