sexta-feira, 8 de março de 2013

Às mulheres, poetizadamente



Homenagem às mulheres no Dia Internacional delas, no embalo do feminino poético...





São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

                       Vinícius de Moraes



Soneto musicado:








sábado, 2 de março de 2013

Fantasias sexuais - Das observações do universo feminino

Willian Etty

Qual a tua fantasia?

- de carnaval?

Não, sexual mesmo...
- ah... faz assim, a gente transa algumas dezenas ou centenas de vezes, e neste tempo construímos a nossa! Pode ser?

Nesses tempos de sexualidade banalizada e aparentemente tudo resolvido entre todos e todas, em que o kama sutra virou roteiro obrigatório de quase todas as camas, falar sobre fantasias é lugar comum. Tudo certo com a liberdade para explorar os desejos e fantasias, aliás, tudo muito certo e saudável, diga-se. Mas o que se tem visto é uma enormidade de homens que reclama do número de mulheres que não têm a sua sexualidade resolvida. Querem experimentar com suas parceiras - usuais ou eventuais - fantasias divulgadas aos montes nas mídias. Elas dizem não. Dizem até que bem antes de fantasias mais ousadas, tem umas que brecam as práticas mais triviais.

Observando o universo feminino, tenho que concordar, em parte, com os reclamões. De fato há ainda muitos tabus imperando sobre a sexualidade das mulheres e isto se contrapõe à ditadura do vale-tudo na cama e com qualquer um, que se tem hoje. As mulheres até discursam com naturalidade sobre o setor sexual, mas confessam suas dificuldades na hora do vamos ver.

A mulher não é treinada para conhecer o próprio corpo, não é ensinada que antes de dar prazer precisa conhecer os seus caminhos. Dar-se prazer para depois dar prazer. Isso não é novidade e explica os limites que elas impõem a si em primeiro lugar e ao parceiro finalmente. Mas surpreende que ainda existam tantas mulheres e homens que desconhecem esta razão.
Há muitos fatores responsáveis pela dificuldade de explorar o próprio corpo. A começar pela história, quando se observa o papel da mulher em sociedade, bem distante da liberdade de estar e ser mulher que hoje experimentam. A triste trajetória de subjugação ao poder do home segue como uma das principais responsáveis pela dificuldade do autoprazer. Exerce, ainda, grande força sobre a crença de que cama serve para atingir o que é objeto do desejo fora dela. Ter ou manter um relacionamento, um emprego ou cargo, ser mãe, garantir patrimônio, isto e muito mais leva muitas mulheres pra cama, e as mantém lá, secundarizando e violando o seu prazer.
 E como o tempo é o senhor que nos diz sobre todas as dificuldades, o que falta ou incomoda sempre vem à tona. Há dificuldades, limitações que demandam colaboração do parceiro e que muitos sequer sabem por onde começar, outros nem mostram predisposição pra investigar. Há, ainda, aqueles antenados, mas mesmo assim ficam tateando no breu que é ausencia de respostas da parceira depois que esgotam todo seu revisitado repertório do kama-sutra. Frustrados, segue o arsenal de reclamações. Só não sabem que reclamam por desconhecer que ela se desconhece.
Conhecer o que dá prazer é pré-requisito, conhecer-se, antes, é ponto de partida para entender que sexo é diversão. Tudo pode. Então, o homem não deveria perguntar qual a fantasia dela, deveria antes (pre)ocupar-se em estimular que ela se conheça, se toque, seja autorreferente pra só depois se tiver fantasias, clichê ou não, naturalmente aflorarão. É o que vida tem mostrado nesta pretensiosa aventura de observar o mundo das relações.
No fundo, bem no fundinho, torço pra que ambos já tenham descoberto que a melhor das fantasias é aquela que é construída a partir de cada novo par que se forma. É que cada par é um par e com ele nasce um infinito de novidades e possibilidades, pouco importando quantas camas cada um já tenha se deitado.





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Triangulações - Das observações do universo feminino







fotografia: Slomi Nissim


Deve ser muito desgastante o papel daquele que nota o seu par diferente, indo, pelos sintomas de encantamento por outra pessoa. Não menos desgastante deve ser pra quem se permitiu sentir o novo, mergulhado nos fascínios da paixão, no mesmo tempo em que é constantemente içado à realidade pelo outro que sofre. Sofrem os dois. Este pela perda da naturalidade, adotando uma postura expositiva de claro desespero; e aquele por ter de administrar os sentimentos que o novo e o velho carregam. Não seria uma dualidade na verdade, certamente bem mais que isto. 

Ser trocado é diferente de romper pelo esvaziamento das sensações que aproximaram um dia e dos sentimentos que foram sendo tecidos ao longo de uma vida a dois. Ser trocado normalmente implica cegar às razões que fizeram murchar a relação, que há muito percebeu, mas não quis/conseguiu fazer diferente. No começo restringe-se a uma disputa com o novo sujeito objeto do desejo do par. Depois, redunda numa batalha consigo próprio, em que a vaidade e segurança individuais sobrepõem-se ao bem-estar e felicidade daquele com quem um dia formou um par amoroso. Nessa guerra não haverá sopesamento do conceito de amor - a si próprio, ao outro e, quando existirem, aos filhos.   

Quem ama, ama como? Amar é ser digno consigo em primeiro lugar. É olhar pra dentro de si e (re)conhecer a espécie de amor que mereça e careça, fazendo o mesmo movimento em direção ao outro, (re)conhecendo o amor de que precise e tenha para oferecer. Feito isso, descobertos os velhos caminhos e novas trilhas que vão se formando na teia de necessidades sempre mutáveis de um par, será sinônimo de amor, por si e pelo outro, admitir a incapacidade de atender e ser atendido. Dignidade no amor, então, será ir e/ou deixar ir. Sofre desmedida e expositivamente aquele que não se ama, nem ao outro. Confunde amor com a disputa com o objeto do seu orgulho ferido. Confunde, particularmente, com uma condição que prefere não mudar. Sofre, talvez, pela incapacidade de amar. 

E sofre aquele que se abriu para o novo, em especial porque não premeditou. Sofre porque na carona da torrente de sensações incontidas da paixão, vem um arsenal de culpas e dúvidas naturais, potencializadas pelas atitudes e discurso - às vezes ardis, noutras desesperados - daquele que se vê trocado. Sofre porque talvez ame genuinamente aquele que quer deixar. Um amor fraterno. E então sofre porque não quer fazer sofrer - e faz. Sofre porque desconhece os limites de suas responsabilidades a dor alheia. E sofrendo, às vezes sucumbe a dor do outro, que assume inteiramente sua, penitenciando-se na reconstrução da velha relação que já não servia mais. Noutras, não sublima o novo amor, entrega-se à promessa de se fazer feliz outra vez, e pode sofrer se o sujeito amoroso aceitar o desafio de guerra feito por aquele que resiste ao 'abandono'; um embate desproporcional, diante da riqueza das armas e armadilhas, invencíveis a qualquer terceiro desavisado que ingresse na linha de fogo do fim de uma relação. E disso, sofre tripla perda, pois a confiança não se reconstroi nem lá, nem cá, nem acolá. 

Quando um começo depende de um fim, uma sirene deveria soar - pois uma  tela pintada inicialmente com as belas tintas do amor pode se transformar num paredão cinza, em que três serão emparedados para receber cada um a sua rajada de sofrimento.  

O amor não tem fronteiras. É a mais pura expressão de infinitas possibilidades e liberdade. Ninguém está livre de se apaixonar por outra pessoa quando já vive uma relação. Do mesmo modo que ninguém que seja  livre está imune aos riscos do encantamento por alguém comprometido. O que não vale nisso, acho, é permitir-se sem antes dar uma espiadinha na lista de possíveis desdobramentos. Não que seja possível premeditar cada caso, mas há clichês tão previsíveis que não fica difícil antever algum resultado. 

Não se deve esquecer que amores vem e vão. Mas que alguns ficam. Que há sublimação e que há quem se permita. Que há jogos sujos e baixos, embora as razões mais íntimas de cada um para manter a condição e que não cabe a ninguém julgar. Que há incapacidades. Que há capacidades.
Que tudo é possível, principalmente viver o amor sonhado. Tudo bem que às vezes bate à porta num tempo em que a razão preferia dizer não, mas com muita honestidade consigo próprio e uma boa dose de coragem para não sucumbir à triangulação doente, o amor deve triunfar - ao menos assim deveria ser ou é a assim que desejo que todos sentissem. Afinal, olhos abertos não retira a esperança, pelo contrário, empresta firmeza ao olhar.








quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Parecenças



Arte: Daniel Buren

Biruta. Foi baixar a guarda justo quando o que parecia brisa era prenúncio de vendaval.
Parecer. Parece ser. É?










domingo, 17 de fevereiro de 2013

Dignidade das putas


Foto: Jean Loup Sieff




Por ter falado em irmandade conjugal no post anterior, lembrei das muitas mulheres que, confessas, não se separam pela condição financeira. Cada uma tem lá suas razões, respeito, mas sempre me ocorre duas questões quando sou confessionário: qual a medida do prazer entre estas mulheres e as prostitutas? E qual a medida que estabelece (pre)conceitos e direitos sociais entre as duas?
Respeitando a opção das outras, admiro um bocado  a dignidade das putas.



Lembrei disso do Roberto Lyra:


Há trâmites compridos,
Que encapam os caninos do cowboy.
É o caso,
É o orgasmo colorido,
É a transa do sábado deserto
Debitada na conta corrente:
Juros altos,
Cartão de crédito sexual,
Que não se acaba nunca de pagar
- Como, aliás, no velho matrimônio,
Este michê instituído,
Com tabelas mercenárias,
Usurárias,
Irritações,
Prisões,
Grilhões:
Para acabar, inventário, partilha;
Dividem-se
Os bens, os filhos e talvez
Umas lembranças murchas.
Amor já não existe a partilhar.

Mas ninguém é bom mesmo,
Ninguém é peste sem remédio,
Somos todos vítimas das engrenagens.
A putaria é só seu avesso
Menos hipócrita, inclusive,
Dispensando escrituras e sermões.

                                 







Ler o amor



https://www.facebook.com/APhotoADayKeepsTheDoctorAway



Amar. Ficar. Irmandade conjugal.
O amor se encerra nas atitudes amorosas. E quando for dito ou escrito só será lido através da grafia dos seus meios líquidos.





sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Dos enganos



Edvard Munch


Aprendi a gostar dos enganos. São testes para minha ignorância, tolerância, frustrações e medos. Uma espécie de exercício para quem sabe, um dia, compreender os sábios. 





terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Estrangeiramento








Em algum momento fui me sentindo estrangeira nos lugares que sempre foram meus. Foi quando perdi o assombro pelas paredes trincando no terreno movediço das descobertas. Foi quando acolhi a queda, em efeito dominó, dos limites territoriais das circunstâncias que se fizeram estáticas. Meus valores, a pátria que me restou. 






http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/cartografia/cartografia-25.php 




domingo, 10 de fevereiro de 2013

Nunca fomos tão felizes






No período de carnaval, bom mesmo é saber que estamos todos felizes. Eles com seus blocos na rua, e nós sem depender da batucada de outros alguéns. Salvo dos tambores da ética na política nacional. Silêncio ensurdecedor.







sábado, 9 de fevereiro de 2013

Palavras pra quê?








Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.

Fala —
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tateia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, sutil!
Mais sutil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.

                 [Paul Celan]