sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Menstruar-se


Arte: Sofia Barreto



Sempre achei estranho quem reclamasse da menstruação. O estranhamento teve início, talvez, no fato de que minha mãe condicionou a primeira depilação das pernas à menarca. Quando ficar mocinha... o prêmio. Menstruei. E em minutos, feliz, já estava sob o chuveiro, dando adeus aos pelos adolescentes. Talvez estranhasse, também, porque nunca tive cólicas. Ou, ainda, porque cedo tive a sorte de flertar com o O.B. e viver um tórrido e derradeiro caso de amor com o Tampax; coroaram a relação - numa espécie de liberdade pra ser fêmea, distante da mulher de tolos desconfortos. Menstruar, pra mim, sempre foi feito a chuva em sua literal e simbólica renovação de ciclos fecundos - gestando, nutrindo, parindo, limpando. Eu, me esvaindo em, e  banhando de - sangue. Acho que toda mulher deveria amar sangrar, e também amar sangrando. Quem sabe, assim, os homens talvez tivessem uma outra relação com os banhos de sangue. 
O poema que segue bem que caberia numa ode à menstruação... 

Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Os homens vertem sangue
por doença,
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar,
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.
Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo,
olho-d'água escarlate,
encharcado cetim
que escorre
em fio.
Nosso sangue se dá
de mão beijada.
Se entrega ao tempo
como chuva ou vento.
O sangue masculino
tinge as armas
e o mar.
Empapa o chão
dos campos de batalha,
respinga nas bandeiras,
mancha a história.
O nosso vai colhido
em brancos panos,
escorre sobre as coxas,
benze o leito.
Manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda
da fêmea.
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.
           [Marina Colasanti]




terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Do teu abraço



Centro Histórico de Porto Alegre - foto: Alfonso Abraham



Há abraços que têm calor uterino.
No ponteiro do relógio conto as horas de emagrecer esta saudade
 - que nasce segundos depois
que se desfaz a presença.
Por isso sempre será pouco
o muito deste calor.




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Dos dias bonitos




Porto Alegre, RS (centro da cidade, ao fundo) - foto Gilberto Simon


Eram as crianças no parque. A bola e a bicicleta. Eram os adultos no parque. O mate, a bola e a bicicleta. O cinema, a pizza e as falas. 
Fim das férias, retomando a vida que pulsa diferente dos dias de ócio, entrando no clima acelerado de minha rotina, e encerro um ciclo de afastamento da vida real dos últimos dois anos. Um 2013 menos virtual. Mas o blog... aqui não deixo não.  Bom-dia vida!!




sábado, 2 de fevereiro de 2013

Quando doi teu corpo físico



Painel 'Paz' -  detalhe. Cândido Portinari


Fiz as contas
As tuas estavam erradas
Não são apenas sete vidas que Deus te deu
Multiplique pelo dobro
E será número suficiente de anos que te exijo
- pra tratar dessa dependência que carrego
da tua lucidez.
Te condeno
E absolvo
Te liberto
E me prendo
Então, ainda que doa aí, te vira
Minha contrapartida tem efeito morfina
Beijos e sorrisos
Zelo, afagos e amor
- anestésicos, alucinógenos.





Necessárias reinvenções







Até tinha conseguido ludibriar minhas inquietudes por um tempo, abandonando    propositadamente a ideia de que viver é uma constante impermanência. Jamais tive medo de mudanças, pelo contrário; mas aprendi que há deslocamentos que impõem, antes, permanecer. Por isso o tempo de ficar, forjado na inventada falta de tempo,  foi, confesso, uma liberalidade. Tinha o fim de ganhar fôlego e clareza para reconhecer o caminho das necessárias reinvenções. Só esqueci de computar que nunca se sabe qual a hora que seremos convocados a abandonar as permanências. Goela abaixo, há fatos, circunstâncias, pessoas que às vezes têm apenas esta única função: mover. Importa o olhar sobre o movimento.







sábado, 12 de janeiro de 2013

Substancial










Nada nunca pôde ser pouco. Nem as dúvidas, que foram encontrando respostas pra dentro e pra fora dos cercadinhos em que me meti. Perguntadeira de mim, querendo voar. Tudo aparentemente tão pouco. Só foi muito quando, instalada em mim, saltei no abismo que retira todas as pressas de viver o 'quê' eu não saiba pra quê. Danço na queda, que não mais é livre ou cega. Pairo sobre aonde encontre um muito, uns porquês.









quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Confissões







Se me fosse dado o domínio de todas as palavras, o dom de dizer, ainda assim faltaria. Falta inventar o signo, a forma, o jeito, o trejeito de derramar na tela a capacidade de um homem, um único - imperfeito e o mais lindo de todos os homens - de me fazer entrar em contato com a matriz do meu amor. Embora saiba que já não tenha, mas mesmo assim me fosse dado o direito de escolha, o reescolheria, depositando nele minha permanência.

  




terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Todas as Mulheres do Mundo





- Maria Alice, escrevi um poema pra você. Não sei se é bom, mas é teu. De modo que eu vou dizer:

Se não fosse meu
o segredo do teu corpo
eu gritaria pra todo mundo.
De teus cabelos,
agrestes
sob os quais faz noite escura.
Tua boca
que é um poço com um berço
no fundo onde nasci.
De teus dedos,
longos como gritos.
Teu corpo,
para compreende-lo, Maria Alice,
é preciso muita convivência.
Teu sexo
um rio, onde navega o meu barco
ao vento de sete paixões.
Longo caminho,
poucos viajantes o percorreram impunemente.
E tua alma
Tua alma é teu corpo, Maria Alice.
        
                    Domingos Oliveira






domingo, 6 de janeiro de 2013

Em outras palavras, é com você






Fly me to the moon...







Leva-me pra Lua
Quero ficar entre as estrelas
Deixa-me voar
Em direção a este lugar
Dá-me tuas mãos
Vem comigo
Vem me encontrar
Nesta viagem

Leva-me pra onde
O amor exista de verdade
Onde a felicidade
Só procure por nós dois
Em outras palavras
Quero dizer
Que eu vou ficar com você

Leva-me pra Lua
Quero ficar entre as estrelas
Deixa-me voar
Em direção a este lugar
Dá-me tuas mãos
Vem comigo
Vem me encontrar
Nesta viagem

Leva-me pra onde
O amor exista de verdade
Onde a felicidade
Só procure por nós dois
Em outras palavras
Quero dizer
Que eu vou ficar com você

Em outras palavras
Quero dizer
Que eu vou ficar com você



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Condição de deusa





Tarsila do Amaral





Ocupam-me tanto todas tuas belezas
Teus apelos, olhos de amar, que
Se me fosse dado o poder de deusa
Te faria um imortal

Com minha luz
Todas as noites o beijaria
Por todo, e toda
a eternidade.