Nada nunca pôde ser pouco. Nem as dúvidas, que foram encontrando respostas pra dentro e pra fora dos cercadinhos em que me meti. Perguntadeira de mim, querendo voar. Tudo aparentemente tão pouco. Só foi muito quando, instalada em mim, saltei no abismo que retira todas as pressas de viver o 'quê' eu não saiba pra quê. Danço na queda, que não mais é livre ou cega. Pairo sobre aonde encontre um muito, uns porquês.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Substancial
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Confissões
Se me fosse dado o domínio de todas as palavras, o dom de dizer, ainda assim faltaria. Falta inventar o signo, a forma, o jeito, o trejeito de derramar na tela a capacidade de um homem, um único - imperfeito e o mais lindo de todos os homens - de me fazer entrar em contato com a matriz do meu amor. Embora saiba que já não tenha, mas mesmo assim me fosse dado o direito de escolha, o reescolheria, depositando nele minha permanência.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Todas as Mulheres do Mundo
- Maria Alice, escrevi um poema pra você. Não sei se é bom, mas é teu. De modo que eu vou dizer:
Se não fosse meu
o segredo do teu corpo
eu gritaria pra todo mundo.
De teus cabelos,
agrestes
sob os quais faz noite escura.
Tua boca
que é um poço com um berço
no fundo onde nasci.
De teus dedos,
longos como gritos.
Teu corpo,
para compreende-lo, Maria Alice,
é preciso muita convivência.
Teu sexo
um rio, onde navega o meu barco
ao vento de sete paixões.
Longo caminho,
poucos viajantes o percorreram impunemente.
E tua alma
Tua alma é teu corpo, Maria Alice.
eu gritaria pra todo mundo.
De teus cabelos,
agrestes
sob os quais faz noite escura.
Tua boca
que é um poço com um berço
no fundo onde nasci.
De teus dedos,
longos como gritos.
Teu corpo,
para compreende-lo, Maria Alice,
é preciso muita convivência.
Teu sexo
um rio, onde navega o meu barco
ao vento de sete paixões.
Longo caminho,
poucos viajantes o percorreram impunemente.
E tua alma
Tua alma é teu corpo, Maria Alice.
Domingos Oliveira
domingo, 6 de janeiro de 2013
Em outras palavras, é com você
Fly me to the moon...
Leva-me pra Lua
Quero ficar entre as estrelas
Deixa-me voar
Em direção a este lugar
Dá-me tuas mãos
Vem comigo
Vem me encontrar
Nesta viagem
Leva-me pra onde
O amor exista de verdade
Onde a felicidade
Só procure por nós dois
Em outras palavras
Quero dizer
Que eu vou ficar com você
Leva-me pra Lua
Quero ficar entre as estrelas
Deixa-me voar
Em direção a este lugar
Dá-me tuas mãos
Vem comigo
Vem me encontrar
Nesta viagem
Leva-me pra onde
O amor exista de verdade
Onde a felicidade
Só procure por nós dois
Em outras palavras
Quero dizer
Que eu vou ficar com você
Em outras palavras
Quero dizer
Que eu vou ficar com você
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Condição de deusa
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Agradecer
É preciso agradecer por todas as minhas capacidades! Obrigada!
Bem-vindo novo e transformador 2013.
Alguns começos daqui.
domingo, 30 de dezembro de 2012
Encerrando ciclos
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| Daehyun Kim |
Despedida de um ano que foi marco. Sempre estou em mim, mas estive bem mais neste ano pela perda de meu pai. A tristeza, que avassala no ápice da dor, foi lentamente transformada em gratidão. Transformada em bem-sentir. Não é fruto de dever cumprido, e sim de estar filha e pai como conseguimos ser. O rosto vai se desfazendo na concretude que a materialidade de estar vivo carrega. Pulso que não pulsa. E então construo um novo rosto. Uma nova forma. Feita de lembranças. De cada linha que acarinhei. Da mão que segurou forte quando precisei. Daquela que dei, firme, quando precisou. Se pudesse voltar o tempo, não voltaria. Sigo daqui, reconhecendo suas tantas influências em mim. Dois mil e doze fecha com o encerramento deste ciclo importante. E mais outros. Fim.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Tanto melhor, assim
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| Joan Miró |
Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.Assim tudo o que existe, simplesmente existe.O resto é uma espécie de sono que temos,Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Alberto Caeiro
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
A Mulher Madura - Affonso Romano Sant'Anna
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| Fotografia: Brad Kunkle |
O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.
A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.
A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.
A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.
Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.
A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.
Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Affonso Romano de Sant'Anna
sábado, 15 de dezembro de 2012
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