quinta-feira, 15 de agosto de 2013

De como se guarda



Picasso - Moon




Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
                            Antônio Cícero











terça-feira, 13 de agosto de 2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Governabilidade(?) dos afetos





No que se tiver algum controle, a governabilidade dos afetos pressupõe parceria entre dois dispostos. Dispostos a governar os limites das ilimitadas vontades/possibilidades; sondar o que até então insondável a si e ao outro. Permitir-se, permitindo. Concessões mútuas, em que cláusulas pétreas do estatuto da relação sejam a amizade e o desejo de seguir [seguindo, acompanhando, crescendo, adiantando, atrasando, com pausa, sem pausa, no compasso da pressa de saber(-se), respeitar(-se), mais]. Não governo meu querer, as razões, critérios, governo apenas as horas que estão ao meu alcance. E ainda assim, uma governança de até ali. Muitas surpresas. 
Daí a graça.






segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Agudezas das bonitezas






Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo


Ficar dentro. Morar e dar morada, em liberdade. 




sábado, 3 de agosto de 2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Gozar é fácil







Gozar é fácil. Qualquer um pode. Basta alguma imaginação e boa vontade. Mas gozo bom, gozo de verdade, é gozo poético, gozo digno. Aquele gozo de quem goza pelo gozo do outro, pela sua forma. Gozo poético é gozo de quem olha no olho e sente, enquanto come corpo, cabeça, olhar. Porque não se esgota em um meio estético, material. Come a alma, devora entranhas, mergulha em todos os meios líquidos, deslizando em cada pedaço. Gozo digno é gozo falado, gozo sentido, gozo gozado. Há muitas formas de dizer do gozo. Há gozo que se expressa, inclusive, em portoalegrês, em crioulo cabo-verdiano. Noutros signos, línguas, linguagens.






sábado, 27 de julho de 2013

Impressões








Conversei longamente com aquele olhar
disse tanto, foi além
bem mais que as (não)promessas
  
Morei uma eternidade naquele abraço
que se fosse pra ser nada
bastava-se na força impressa
[Se for pra doer
que doam apenas os músculos
exaustos]






quarta-feira, 24 de julho de 2013

sábado, 20 de julho de 2013

Da liberalidade









Já nem busco entender
esta força que nos pousa
coloca em, diante de
Me agasalho na irrecorribilidade dos tropeços do acaso
em seus mapas rasgados que ocultaram trechos, jogando
no trânsito movediço que remete/arremete
desde o cá e pra o lá, simplesmente então
aceito
E enquanto bebo da presença
deste presente que se apresenta
me agarro ao único lapso de liberalidade
que a vida confere: escolher
- se vou ou se fico
[sem medos]




sexta-feira, 5 de julho de 2013

Serenidades


Fotografia: Sans Haskins



seja o que quer que fosse
deu no que dá
aparentemente inconclusivo
esgota-se no que é


porque enquanto
teria sido
e tivesse dado
no que desse
fomos sendo o que
temos tido
sem ideia do que viesse
ocupação com o que
seremos

ser assim
porque
serenos