terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Mulher Madura - Affonso Romano Sant'Anna






Fotografia: Brad Kunkle




O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

                                                                                                                                      Affonso Romano de Sant'Anna






sábado, 15 de dezembro de 2012

Dá pra não complicar?









Porque há vontades que não deixam espaço para complexidades vãs. 
A vida convoca à simplicidade.






quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

É o que a casa oferece









Não que tenha medo de fantasmas. Tenho é blindagem contra medo alheio de seus ectoplasmas não exorcizados. Para os meus, reza e água benta - fique em paz, mantendo distância regular, por favor. 
Não que tenha medo de luta. Tenho pânico é de guerra. Das tantas que já comprei e não eram minhas. Serve oferta de batalha? Só se for conjunta. Eu e eu mesma, e quem mais quiser. Comunhão de esforços para identificar desejos bons e fórmulas para realizar os que se queira seja mantido - bonito isto, caso não trouxesse alguma carga de idealização. E não nego, dela também se constroem sonhos.
Não que tenha pressa. Tenho é urgências de ganhar a comida que mantém pulsante o sopro da crença de que sempre vale a pena. Senão, bem verdade que até que não morro de fome. Uma parte sobrevive, e bem, pois esta depende apenas do que eu a ofereça. Morre aquela que não se alimenta da comida que tem de ser entregue pelo outro. Uma morte sem direito à dedicado luto, pois já morri de véspera tantas vezes que hoje poucas mortes doem aqui. 
Não que me falte paciência. Tenho é baixa tolerância para elucubração. Faça-se, então.
E haja coragem.








quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

12.12.2012












Deve ser o período do ano.  Semana passada, mirando a madrugada silenciosa da janela, um risco de fogo cruzou o céu. Fazia anos não via uma estrela cadente. E lembrei dos tantos céus em que me perdi nas noites escuras lá do interior. As luzes dos grandes centros roubam a atenção daquele que parecia um pano escuro imenso, com furinhos que deixavam passar a luz de uma outra dimensão - era o olhar da criança para as estrelas. Lembrei das tantas luas, e que era vício acompanhar suas fases no correr das estações do ano. E quantas vezes o telhado foi lugar escolhido para antecipar sua chegada, alimentando a ilusão de que dali seria possível tocá-la - sem noção que um passo em falso custaria o adeus ao mirante escondido. Deve mesmo ser alguma espécie de pacto que o céu e a lua fazem com certas pessoas. Decretam a sujeição em forma de fascínio e, sem direito dizer palavra, prendem pra sempre. Tão forte é a magia que faz perder a noção dos perigos, como outro dia em que, em plena  madrugada, paralisei às margens do Guaíba diante do que mais parecia um gomo gigante de bergamota. Mais alaranjada que  a própria laranja, refletia seu traço na extensão do rio - que como eu não teve escolha, sucumbiu também hipnotizado. Sem movimento. Um mundo de silêncios. Eu, o rio e sua majestade. De certo que a lua faz cometer loucuras porque de alguma forma garante proteção a quem se arrisca em seu nome. Hoje vi o calendário e marcava 12.12.2012. Olhei pro céu e não tinha risco de fogo, nem a bola magnética, mas lembrei dos pedidos juvenis às estrelas cadentes e à lua. Pedi, então, que meu olhar contemplativo de criança não me abandone jamais. 






terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Alguma compreensão









Gregory Colbert




Ser terra
E cantar livremente
O que é finitude
E o que perdura.
Unir numa só fonte
O que souber ser vale
Sendo altura.
     Hilda Hilst


sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Contestando flertes







Fotografia: Elena Kalis



Amar nos coloca numa posição de grande vulnerabilidade e fragilidade e por isso o amor é tão assustador. Se sentir desprotegido é uma sensação de morte. Amar é flertar com a morte, pois se tudo acabar é isso que vamos sentir, como se tivéssemos morrido. O grande amor é assustador e exige enorme coragem.*





Há muita confusão entre amor e paixão. Efêmera, a paixão capricha nas inseguranças e angústias que o tempo, para quem teve a 'sorte' de se permitir, dá um jeito de ensinar que se trata de uma das mais paradoxais sensações. Das maravilhas aos horrores - de se desconhecer por não mais morar em si - residência fixa apenas no outro. Já o amor, construído, sem pressa, a partir da observação detida das identidades, e sem os véus da idealização romântica e cega que quer um espelho, somente este, à mim, parece capaz de permanecer no tempo. Houve o tempo necessário para identificar aquele(a) que ensandece no que seja, e ainda assim acalma a alma - na doce loucura que é a cumplicidade singular de quem verdadeiramente ama. Quem flerta com a morte é a paixão cega [redundância na cegueira]. Nesta fase da vida, fico com a ideia de que amar é flerte com a transformação.





* Da querida amiga Andréa Beheregaray. Recomendo a íntegra.
http://andreatpm.blogspot.com.br/2011/12/cronica-virtual-texto.html





terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Distância




Kris Kuksi, ''Reticent Affair"



Olho no olho, no frio,
deixa-nos também começar assim:
juntos deixa-nos respirar o véu
que nos esconde um do outro,
quando a noite se dispõe a medir
o que ainda falta chegar
de cada forma que ela toma
para cada forma
que ela a nós dois emprestou.
                           Paul Celan













segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Estágios







O Jardim do Amor. Miniatura de Roman de la Rose. Flandres, final do sec. XV





"O mundo é um palco; os homens e as mulheres, meros artistas, que entram nele e saem. Muitos papéis cada um tem no seu tempo; sete atos, sete idades. Na primeira, o grito e a baba nos braços da mãe. Depois, o rosto matinal de serpente que se arrasta para escola a contragosto. O amante vem depois, fornalha acesa, celebrando as sobrancelhas da mulher desejada. Em seguida, o soldado, cheio de juras feita sem propósito, a buscar a glória vã na boca dos canhões. Segue-se o juiz, de olhar severo e estômago cheio, impondo as sentenças e as certezas que seu papel exige. Na sexta idade o mundo é amplo demais para as pernas mirradas e o falsete da voz infantil que voltou. A última cena, remate desta trágica história, é o esquecimento, a vista falha, os dentes, o gosto, tudo, nada."  William Shakespeare